Decifrar para não sermos devorados

Por Paulo Hartung* e José Carlos da Fonseca Jr.**
Nestes nossos tempos tão extraordinários, é grande a tentação de buscar paralelos com outros momentos históricos para deles tirar lições. De fato, vêm à mente as velhas aulas sobre o Congresso de Viena na Europa pós-napoleônica, os grandes jogos da política das potências imperiais, os sistemas de equilíbrio de poder, inclusive o que ruiu com a queda do muro de Berlim, ensejando a fugaz ilusão de um mundo unipolar, ou até mesmo conceitos mais novos como G-Zero, que seria o mundo desprovido de um hegemon incontrastável.
No recente documento Top Risks 2026, a Eurasia traça instigante panorama do cenário internacional, com destaque para uma série de aspectos e tendências que marcam nossa atualidade, projetando-se no futuro. Trata-se de processos evolutivos que se desdobram em distintos ciclos, nem todos com precedentes claros.
Por exemplo, perdeu exclusividade determinante o poder eminentemente militar que visava à conquista de territórios e às expansões de cunho mercantilista. A força bélica mantém relevância central, porém em cenário que passou a ser compartilhado, de um lado, com a capacidade de exercer efetiva influência econômica e, de outro, com quem ostente maior fulgor científico e tecnológico.
Na dimensão propriamente da defesa, ainda há uma hierarquia aquilatável, daqueles que detêm arsenais maiores ou tecnologias mais letais (mesmo aqui há mudanças em curso, com as chamadas guerras híbridas, os drones, os ataques cibernéticos). Contudo, nas esferas do poderio “econômico” – cadeias de suprimento, infraestrutura e logística, pujança financeira e de mercados, disponibilidade de recursos hídricos e energéticos, até mesmo segurança jurídica e estabilidade – fica menos discernível uma classificação. Lógica similar pode ser encontrada também no plano da tecnologia, das plataformas digitais, das redes e fluxos de dados, da IA, assim como no dinamismo em sistemas de P&D, de inovação e de educação científica – alguns poucos países largaram bem na frente.
A dúvida é se seria possível repartir em esferas de influência, no clássico sentido da great powers politics, esse mundo des-hierarquizado que ignora fronteiras nacionais ou de blocos. Como represar fluxos ou regular movimentos que nasceram na anomia da internet e da realidade digital?
A própria ideia de ordem internacional dependeria de uma taxonomia que talvez já nem faça sentido na complexa e anárquica realidade de nossos dias. Ao contrário, vivemos em sistema internacional hoje mais caracterizado pela falta de ordem, pela fragmentação, por graus crescentes de desrespeito às normas e códigos. O recrudescimento de unilateralismos ameaça a longa construção civilizatória do direito internacional e de um mundo baseado em regras, com suas instituições multilaterais. É como se estivéssemos voltando à lei da selva, em que o mais forte se impõe.
É nesse cenário desafiador que precisamos situar o Brasil e seus labirintos. Os impactos do tarifaço aplicado pelos EUA, a perda de canais de interlocução com Washington, os riscos de desestabilização da América do Sul, como na grave crise ainda em andamento na Venezuela, a erosão de uma liderança regional nossa que antes parecia natural – todos estes são sinais que merecem a máxima atenção.
O Brasil tem atributos geográficos, demográficos e econômicos que lhe dificultam a opção pela irrelevância. Temos também repertório diplomático e trajetória de ecumenismo universalista guiado em interesses nacionais permanentes. Com perfil diversificado em múltiplas parcerias de comércio exterior, nosso país se transformou em potência agroambiental, energética e mineral, apta a adensar conexões e cadeias de valor verdadeiramente estratégicas. Na seara industrial, de igual modo, conseguiu estruturar segmentos hoje reconhecidos por sua competitividade. Verdadeiros casos de sucesso global, como a Embraer, a Weg Motores, para não mencionar o protagonismo na agroindústria, que no ano passado exportou quase US$ 170 bilhões.
Assim, se voltarmos à concepção de um cenário no qual tenhamos as já mencionadas três dimensões de poder – a de defesa, a econômica e a tecnológica – é urgente que o Brasil tenha uma interpretação lúcida e sem ideologia do mundo no qual precisamos navegar. Simplesmente, não podemos fazer leituras erradas, mirando o retrovisor que nos mostra velhas novidades, como quando a esquerda defende ditaduras ou a direita elogia intervenções armadas.
* ECONOMISTA, PRESIDENTE DA INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES (IBÁ), EX-GOVERNADOR DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO
** EMBAIXADOR, PRESIDENTE-EXECUTIVO DA EMPAPEL E DO ADVISORY COMMITTEE ON SUSTAINABLE FOREST-BASED INDUSTRIES (ACSFI) DA FAO
Publicado em Folha de S. Paulo



