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A transição energética precisa de florestas

O papel estratégico das árvores cultivadas e da biomassa na substituição de fósseis e no avanço da nova economia verde brasileira.
30/10/2026

Por Márcia Silva

Toda grande transformação econômica muda o valor dos recursos que a sustentam. Foi assim com o petróleo no século passado. É assim com os minerais críticos na corrida pela eletrificação. E será também com os insumos renováveis necessários para descarbonizar a economia.

Entre esses insumos, está a biomassa. A indústria brasileira de árvores cultivadas a utiliza há décadas para gerar energia e calor em seus processos produtivos, mas à medida que mais setores substituem fontes fósseis, cresce a demanda por esse recurso. A fronteira da descarbonização industrial começa, portanto, a encontrar a fronteira da produção de biomassa.

Isso traz uma questão pouco discutida para o centro da transição energética. Não é possível substituir integralmente uma fonte de energia por outra, mas é preciso desenvolver as cadeias capazes de sustentar o crescimento dessa demanda no longo prazo.

Nesse aspecto, a experiência do exitoso setor brasileiro de árvores cultivadas oferece algumas respostas.
Ao longo de décadas, essa indústria escalou sua produtividade ao mesmo tempo em que aperfeiçoou técnicas de manejo sustentável, graças a investimentos em pesquisa e tecnologia. Hoje, faça chuva ou faça sol, plantamos 2,2 milhões de árvores diariamente.

Nas fábricas, essas árvores viram verdadeiras biorrefinarias, com a separação de duas matérias-primas centrais: a fibra e a lignina, parte da estrutura que dá sustentação aos troncos. Da fibra, são feitos milhares de bioprodutos, consumidos por mais de 4 bilhões de planetários. Da lignina, é possível gerar a energia que abastece essa agroindústria — a autogeração verde, inclusive, já responde por 90% de toda energia consumida pelo setor.

A base florestal do setor ocupa 10,5 milhões de hectares no país. O manejo dessas áreas é realizado dentro de uma lógica de paisagem em que plantações são intercaladas com extensas áreas de vegetação nativa conservada — os chamados mosaicos florestais. Essa técnica permite a formação de corredores ecológicos e contribui para a conservação da biodiversidade, a proteção do solo e a regulação dos fluxos hídricos.

Vale destacar que sua expansão ocorre sobre áreas previamente antropizadas, substituindo, por exemplo, pastos de baixa produtividade por cobertura florestal que presta uma infinidade de serviços ecossistêmicos. Segundo o Atlas da Pastagem, da Universidade Federal de Goiás, o Brasil possui cerca de 100 milhões de hectares de terras com algum nível de degradação, sendo boa parte delas passíveis de serem convertidas para a produção de fibras, grãos, energia e também para a restauração florestal.
A biomassa florestal pode e deve ser uma trilha, a se somar a outras, à medida que cresce a demanda por energia. Produzir biomassa significa criar uma alternativa renovável para ajudar a atender à expansão industrial sem transferir essa pressão para a vegetação nativa.

Isso começa a acontecer no estado do Mato Grosso, por exemplo. A rápida expansão do etanol de milho transformou o estado em um dos casos mais interessantes da nova economia da biomassa. As usinas precisam de grandes volumes de energia térmica, e a biomassa tornou-se parte importante desse sistema. O crescimento industrial, porém, encontrou uma base florestal que ainda precisa ganhar escala.

Segundo dados do Itaú BBA, considerando uma capacidade de produção de 8 bilhões de litros de etanol, a demanda potencial de biomassa equivaleria a aproximadamente 259 mil hectares de eucalipto em produção. Com a expansão prevista da indústria mato-grossense para 12 bilhões de litros de etanol até 2030, consumindo cerca de 27 milhões de toneladas de milho, a necessidade florestal pode alcançar 383 mil hectares plantados.

A verdade é que o estado antecipa um desafio que tende a aparecer em outras cadeias à medida que a descarbonização industrial avança. Se alimetos, biocombustíveis e outras atividades ampliarem o uso de biomassa para substituir combustíveis fósseis, a pergunta inevitavelmente deixará de ser apenas “quanto de energia renovável podemos consumir?” e passará a ser “de onde virá a biomassa necessária para produzi-la?”.

Essa mudança de perspectiva é importante porque durante muito tempo parte do debate ambiental tratou expansão produtiva e conservação como objetivos concorrentes. A experiência acumulada pela silvicultura brasileira sugere uma equação mais sofisticada. Árvores plantadas são ativos capazes de fornecer madeira e energia renováveis, reduzindo a pressão sobre os ecossistemas naturais, para que esses continuem a cumprir suas funções ecológicas e a prover serviços ecossistêmicos.
No caso brasileiro, vivemos uma transformação importante. A modernização da pecuária tem permitido a diversificação das atividades econômicas no uso da terra. É nesse contexto que novas possibilidades podem surgir, entre elas a silvicultura, em áreas com aptidão para o cultivo de árvores e sempre a partir de planejamento territorial adequado.

Transformar esse potencial em uma nova cadeia produtiva, no entanto, exigirá mais do que simplesmente plantar árvores. Florestas são investimentos de longo prazo, que demandam capital, planejamento e conhecimento técnico. E, nesse percurso, o Brasil não parte do zero: conta com um setor florestal que acumulou décadas de experiência na produção em escala, desenvolvimento científico e tecnologia, manejo sustentável e modelos de gestão capazes de sustentar uma cadeia competitiva.

O desafio agora é mobilizar esse conhecimento para suprir a oferta que a indústria precisará nos próximos anos.
Para quem precisa de biomassa hoje, será necessário combinar soluções de curto prazo para garantir o abastecimento com uma estratégia de expansão florestal capaz de reduzir progressivamente esse descompasso entre oferta e demanda. A transição energética dificilmente será acelerada se continuarmos discutindo como novidade questões que décadas de experiência florestal brasileira já ajudaram a responder. É preciso transformar conhecimento em escala e fazê-lo na velocidade que a nova demanda por biomassa exige.

Publicado em Revista O Papel

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