Artigos

O desafio de reinventar a política

Cabe inventar, por ora, um novo fazer político na contingência da sociabilidade bidimensional – digital-presencial
02/12/2025

Por Paulo Hartung e José Antonio Martinuzzo
A política vive um terceiro momento crucial em sua trajetória histórica, um marco divisor na sua linha do tempo. Do nascimento na ágora grega, passando pela releitura iluminista, a política enfrenta atualmente um desafio colossal: reinventar-se de acordo com um modo inédito de existir, aquele que se dá tanto por meio de laços presenciais quanto por conexões digitais.

Nepal, Madagascar, Marrocos, Peru, Indonésia, Quênia, Filipinas. Esses países experimentaram recentemente a força da ciberpolítica efetivada pela geração Z – nativa digital e que circula com desenvoltura no “continente de bytes”. Por outro lado, os extremismos, que encontram lugar discursivo privilegiado nos ciberterritórios, especialmente turbinados por desinformação/fake news, também são um fenômeno da digitalidade. 

Assim, os desafios políticos decorrentes dessa civilização sincrética, informacional-presencial, vão desde o diálogo com os mais novos até a confluência de práticas políticas consolidadas com as inovações da política digitalizada, passando pelo enfrentamento a movimentos anti-iluministas, notadamente oriundos do ciberespaço, mas com ecos potentíssimos dada a relevância das redes. 

De toda sorte, não é simples abrir essa nova fronteira histórica para a política de base democrático-republicana e humanista. A ação política informacionalizada é veloz, multifocal, compartilhável e não hierarquizada, mobilizada muito mais por influencers e apoiadores do que por lideranças estabelecidas no campo político. 

É preciso destacar, também, que esse movimento ocorre em propriedade privada. As chamadas big techs controlam plataformas e os seus algoritmos dão a feição das redes. Nessa circunstância, os ciberterritórios se conformaram como um mercado de captura e venda de atenção, dinamizado por polêmicas, pela lógica do “nós contra eles”, pela gestão de medo e pelos discursos de ódio. 

Foi justamente para fazer da existência humana um fato histórico assentado em nossas potencialidades para a fraternidade, indo muito além da agressividade, que os gregos inventaram a política. Em vez das armas e das guerras fratricidas, a argumentação, a negociação e a racionalidade constituem laços – podemos ser muito mais do que iguais se matando, se odiando… 

Enfim, neste tempo de grandes mudanças, o fundamental segue em duas direções:  compartilhar e sustentar valores inegociáveis da política emancipatória e abrir-se ao novo, inventando novas formas de se fazer política, combinando o tradicional e o inovador, buscando o que cada um tem de melhor. 

“O desafio está justamente em encontrar – ou inventar – as formas mais propícias à reconexão entre o ‘mundo da vida e da sociedade’ e o ‘mundo das instituições e do Estado’. Esse é o grande desafio da política democrática contemporânea”, alerta Fernando Henrique Cardoso, no livro “Crise e Reinvenção da Política no Brasil”. 

“Diante desse quadro, é preciso revalorizar as instituições clássicas da liberal-democracia (parlamento, partidos, separação dos poderes e freios e contrapesos entre eles). Elas continuam a ser tão indispensáveis quanto sempre foram. Trata-se de renová-las, de torná-las mais adaptadas às demandas da sociedade”, recomenda. 

Como destacou o pensador Steven Pinker, é preciso um “novo iluminismo”, fundado na racionalidade e na ciência, com “normas e instituições que canalizem interesses particulares para benefícios universais. Entre essas normas estão a liberdade de expressão, a não violência, a cooperação, o cosmopolitismo, os direitos humanos e o reconhecimento da falibilidade humana; entre as instituições estão a ciência, a educação, os meios de comunicação, o governo democrático, as organizações internacionais […]”. 

Nesta atualidade eivada de novidades impactantes, é preciso que não se perca a agenda fundamental para a construção de um mundo essencialmente humanístico, assentado na dignidade de todos em sua diversidade, na justiça socioeconômica como propósito máximo de todo o exercício de poder e no progresso como meio de fazer avançar a civilização. 

A história não tem destino, colocando-se como uma obra em aberto. Paul Valéry afirmou que sempre que nasce um, nasce com ele a demanda de educação para a civilidade. Assim, além de fazer prosseguir a experiência democrático-republicana, temos o desafio extra de reinventá-la sob os novos termos da contemporaneidade. 

Se foi preciso passar da democracia direta e da cidadania excludente da Grécia Clássica para a democracia representativa de grandes nações organizadas pelos valores iluministas a partir do século 18, cabe inventar, por ora, um novo fazer político na contingência da sociabilidade bidimensional – digital-presencial. 

A ação política é o caminho que temos para buscar êxito nessa empreitada desafiante. Conforme estabeleceu Fernando Henrique Cardoso, “a política não é a arte do possível. É a arte de tornar o necessário possível. Em outras palavras, política é a arte de ampliar o campo de possibilidades. Com convicção e esperança”. 

Paulo Hartung – Presidente da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), ex-governador do Espírito Santo (2003-2010, 2015-2018), economista.

José Antonio Martinuzzo – Professor titular na Universidade Federal do Espírito Santo, pós-doutor em Psicanálise (UERJ), doutor em Comunicação (UFF). 

Publicado em Estadão

Notícias mais recentes

Produzir, conservar e proteger: o papel do controle biológico no setor de árvores cultivadas
Artigos

Produzir, conservar e proteger: o papel do controle biológico no setor de árvores cultivadas

Icon
O futuro da indústria florestal no Brasil: integração, rastreabilidade e baixo carbono
Artigos

O futuro da indústria florestal no Brasil: integração, rastreabilidade e baixo carbono

Icon