Vale da Celulose avança e transforma Três Lagoas em potência florestal

A expansão da silvicultura vem mudando a paisagem, a economia e as relações de trabalho no campo em Três Lagoas e nos municípios do chamado Vale da Celulose. Com aproximadamente 1,5 milhão de hectares de florestas plantadas, Mato Grosso do Sul já ocupa a segunda posição no ranking nacional, atrás apenas de Minas Gerais. A maior parte dessa área é formada por eucalipto, matéria prima que abastece as indústrias de celulose instaladas e em implantação no Estado.
O avanço do setor deve ganhar novo impulso com a chegada de grandes projetos industriais, como o Projeto Sucuriú, da Arauco, em Inocência, e os investimentos anunciados pela Bracell, além da expansão das operações da Suzano e da Eldorado Brasil. O movimento consolida o leste sul mato grossense como uma das principais fronteiras florestais e industriais do país.
A reflexão parte de um artigo publicado no LinkedIn por Bernardo Alves Pereira, gerente de Viveiro e Silvicultura, que chama a atenção para uma questão fundamental: uma floresta não deve ser avaliada apenas pela quantidade de madeira que produz, mas pelo valor que consegue gerar ao longo de toda a cadeia.
“Não é sobre produzir mais. É sobre gerar mais valor.”
O ponto central do artigo é que produtividade, sozinha, não paga a conta. É necessário considerar a qualidade da madeira, os custos de implantação e manutenção, a logística, a infraestrutura disponível, o preço do produto, o mercado consumidor e as alternativas de uso da área. Uma floresta pode apresentar excelentes índices de crescimento e, ainda assim, não entregar o retorno esperado sobre o capital investido.
Essa análise se aplica diretamente à realidade de Três Lagoas e dos municípios vizinhos. A formação do Vale da Celulose não representa apenas o plantio de árvores em larga escala. Ela envolve viveiros, preparo do solo, plantio, manejo, colheita, transporte, manutenção de estradas, pesquisa, tecnologia, prestação de serviços e operação industrial.
Nova cultura no campo
A silvicultura também provocou uma profunda transformação no modelo tradicional de ocupação das propriedades rurais. Durante décadas, grandes áreas destinadas à pecuária eram administradas por poucas pessoas, geralmente com a presença de um caseiro, sua família e um capataz.
Com a expansão das florestas plantadas, esse cenário mudou. O setor passou a exigir mão de obra especializada e a movimentar uma extensa rede de empresas e trabalhadores. São profissionais envolvidos no planejamento, na produção de mudas, na operação de máquinas, no monitoramento ambiental, na manutenção, na colheita, no transporte e na gestão das áreas florestais.
O resultado é a geração de milhares de empregos diretos e indiretos, além da abertura de oportunidades para trabalhadores que chegam de outras regiões em busca de colocação no setor florestal. A cadeia também movimenta hotéis, restaurantes, oficinas, transportadoras, empresas de tecnologia, comércio e serviços.
Em Três Lagoas, a presença da Suzano e da Eldorado Brasil ajudou a consolidar essa nova dinâmica econômica. O município passou a ser reconhecido internacionalmente pela produção de celulose e pela capacidade de atrair investimentos, fornecedores e profissionais especializados.
Floresta e desenvolvimento regional
A expansão florestal também contribui para o aumento da arrecadação municipal e estadual, fortalece o setor de serviços e amplia a demanda por qualificação profissional. Municípios como Ribas do Rio Pardo, Inocência, Água Clara, Brasilândia, Bataguassu, Selvíria e Três Lagoas integram uma região cada vez mais conectada pela cadeia produtiva da celulose.
Dados recentes apontam que Ribas do Rio Pardo possui a maior área municipal de florestas plantadas do país, com cerca de 380,7 mil hectares. Esse crescimento confirma a dimensão da transformação provocada pela silvicultura no leste de Mato Grosso do Sul.
Outro aspecto importante é o ambiental. As florestas plantadas contribuem para a remoção de dióxido de carbono da atmosfera durante o crescimento das árvores. Esse potencial pode gerar créditos de carbono, desde que os projetos atendam a metodologias reconhecidas, sejam monitorados e passem pelos processos de certificação e validação necessários.
Além disso, o setor florestal pode contribuir para a recuperação de áreas degradadas, a proteção de nascentes e a formação de corredores ecológicos, desde que o plantio seja realizado com planejamento, respeito à legislação ambiental e manutenção das áreas de preservação permanente e de reserva legal.
O desafio é gerar valor
A expansão do Vale da Celulose traz oportunidades, mas também impõe desafios. O crescimento precisa ser acompanhado por investimentos em estradas, moradia, saúde, educação, segurança, qualificação profissional e planejamento urbano. Também é necessário garantir que a atividade florestal tenha responsabilidade ambiental e gere benefícios permanentes para as comunidades locais.
A principal mensagem da reflexão publicada por Bernardo Alves Pereira é que o setor não deve perseguir apenas recordes de produtividade. A pergunta mais importante é se cada hectare plantado está gerando o melhor retorno econômico, social e ambiental possível.
Para Três Lagoas e toda a região, essa discussão chega em um momento decisivo. O Vale da Celulose já deixou de ser apenas uma área de produção de madeira. É hoje um território de inovação, indústria, empregos, renda e novas fronteiras econômicas.
O futuro, portanto, não dependerá somente de plantar mais árvores, mas de produzir com eficiência, proteger os recursos naturais e transformar a floresta em desenvolvimento de longo prazo para toda a população regional.
Publicado em Perfil News



