Notícias

Biorrefinaria — a indústria que pode moldar o século 21

As biorrefinarias podem ajudar a descarbonizar a economia sem paralisar a produção. Para isso, exigem ciência avançada, engenharia, logística, financiamento, regulação, certificação e mercado
16/07/2026

Por Maurício Antônio Lopes — Pesquisador da Embrapa Agroenergia

Todos sabemos, mesmo que de forma intuitiva, o que é uma refinaria. Há mais de um século, esse tipo de instalação transforma petróleo bruto em combustíveis, plásticos, lubrificantes, solventes, fibras, resinas, fertilizantes e muitos outros produtos da vida moderna. Boa parte da indústria do século 20 foi construída em torno dessa lógica: extrair uma matéria-prima fóssil, separar suas frações e abastecer diferentes cadeias produtivas.

O problema é que esse modelo, embora eficiente para gerar riqueza, infraestrutura e conforto, passou a ser cada vez mais questionado. Ele depende de carbono fóssil, acumulado na natureza ao longo de milhões de anos, e está associado a emissões de gases de efeito estufa, poluição, resíduos difíceis de manejar e disputas geopolíticas. A refinaria de petróleo, antes símbolo de progresso, tornou-se também símbolo de um modelo que precisa ser revisto.

Mas o mundo continuará precisando de energia, combustíveis, materiais, fertilizantes, embalagens, fibras, químicos e outros insumos industriais. Em uma economia que precisa emitir menos carbono, desperdiçar menos recursos e cuidar melhor do ambiente, esses produtos terão que vir de novas bases produtivas. É nesse contexto que a biorrefinaria ganha importância.

A lógica é parecida com a de uma refinaria tradicional. A diferença é que, em vez de petróleo, a biorrefinaria utiliza biomassa, isto é, matéria orgânica renovável de origem vegetal, animal ou de resíduos, como cana, milho, soja, madeira, restos agrícolas, dejetos animais e até resíduos urbanos orgânicos. A partir dessa base renovável, é possível produzir energia, biocombustíveis, bioinsumos, químicos, biomateriais, fertilizantes e outros produtos.

Enquanto o petróleo é fóssil, concentrado e finito, a biomassa é renovável, diversa e distribuída pelo território. Está ligada à agricultura, às florestas, à agroindústria e aos ciclos da natureza. Por isso, a biorrefinaria não é apenas uma fábrica diferente. Ela representa uma nova forma de pensar a indústria: produzir mais valor, usando melhor cada parte da matéria-prima e transformando resíduos em novos insumos.

O mundo precisa dessa mudança com urgência. Mesmo com o avanço das energias renováveis, dos veículos elétricos e de outras tecnologias limpas, as emissões globais seguem muito elevadas. Isso mostra que a transição energética é indispensável, mas não basta. Será preciso também mudar a base material da economia, substituindo, sempre que possível, carbono fóssil por carbono renovável, reciclado ou capturado.

As biorrefinarias entram exatamente nesse espaço. Elas podem ajudar a descarbonizar a economia sem paralisar a produção. O objetivo não é simplesmente trocar um combustível por outro, mas redesenhar cadeias produtivas inteiras. Uma usina de cana, por exemplo, pode deixar de ser vista só como produtora de açúcar, etanol e eletricidade. Ela pode se tornar plataforma de etanol de segunda geração, biogás, biometano, combustível sustentável de aviação, biofertilizantes e químicos renováveis.

O mesmo raciocínio vale para plantas de etanol de milho, indústrias de celulose, frigoríficos, cooperativas, cadeias florestais e polos de resíduos urbanos e agroindustriais. O salto está em integrá-los, diversificar seus produtos e conectá-los a mercados mais sofisticados. Em vez de jogar fora o presente para construir o futuro, as biorrefinarias permitem transformar estruturas existentes em pontes para uma nova economia industrial.

Essa é uma oportunidade muito relevante para o Brasil. Temos uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, agricultura tropical de alta produtividade, diversidade de biomassas, experiência em biocombustíveis, indústria florestal competitiva e resíduos ainda pouco aproveitados. Poucos países combinam, ao mesmo tempo, base biológica pujante, escala produtiva, energia limpa e capacidade científica como o Brasil.

Mas nada disso acontecerá automaticamente. Biorrefinarias exigem ciência avançada, engenharia, logística, financiamento, regulação, certificação e mercado. Exigem também coordenação entre políticas de agricultura, indústria, energia, ciência e tecnologia, meio ambiente e comércio exterior. Não é uma agenda simples ou setorial. Trata-se de uma estratégia de desenvolvimento, que precisa integrar campo, indústria, ciência, energia e mercado.

O risco é tratarmos a bioeconomia apenas como uma expressão simpática, sem perceber sua verdadeira dimensão industrial. Em um século marcado pela urgência climática, pela busca de segurança econômica e pela necessidade de produzir mais com menos desperdício, as biorrefinarias oferecem ao Brasil um caminho concreto para transformar vantagem natural em liderança industrial. O século 20 foi moldado pelo refino do petróleo. O século 21 poderá ser moldado pelo refino da biomassa — e o Brasil tem tudo para ocupar posição de destaque nessa nova fronteira.

Publicada em Correio Braziliense

Notícias mais recentes

Em iniciativa pioneira no setor, Suzano desenvolve operação remota de colheita florestal em MS
Notícias

Em iniciativa pioneira no setor, Suzano desenvolve operação remota de colheita florestal em MS

Icon
Madeira é destaque de MG na economia de baixo carbono
Notícias

Madeira é destaque de MG na economia de baixo carbono

Icon