Notícias de um Brasil que dá certo

Por Paulo Hartung
Às vezes, a pauta de atrasos, problemas, desafios, emergências e retrocessos, que não dá trégua nos noticiários e nos feeds das redes sociais, faz parecer que não há luz no fim do túnel ou, até mesmo, que a realidade entrou num tortuoso caminho sem volta, com poucas chances de redenção.
É tanto fato ruim e desanimador em áreas cruciais como educação, equilíbrio institucional, ajuste fiscal, redução de juros, combate à corrupção, segurança pública, marcos regulatórios, arcabouço jurídico, entre outros, que é preciso investir em dar algum fôlego à esperança e jogar o foco em evidências concretas de que poderíamos ter um país à altura de nossas potencialidades e merecimentos.
Nesse sentido, é que venho falar de fatos inspiradores, tratar de coisas boas que estão acontecendo em nosso Brasil, esforços consequentes que vêm sendo realizados para superarmos alguns dos nossos mais graves obstáculos.
Estive em fevereiro em Inocência, município do Mato Grosso do Sul localizado a mais de 300 km de Campo Grande. O motivo para embarcar nessa viagem ao interior de nosso país foi o lançamento da pedra fundamental da ferrovia do Projeto Sucuriú (EF-A35), da Arauco, empresa chilena que ali ergue o que virá a ser a maior fábrica de celulose do mundo.
O investimento na ferrovia é da ordem de R$ 2,4 bilhões, incluindo obras, locomotivas e vagões. O ramal, de 45 Km, ligará a nova planta industrial da Arauco à Malha Norte (EF-364), formando um corredor logístico até o Porto de Santos (SP). A operação contará com 26 locomotivas e 721 vagões – com isso, a Arauco vai substituir 190 viagens de caminhão por dia.
O novo ramal ferroviário resulta de um importante avanço regulatório no âmbito federal. Destaca-se ainda que o Mato Grosso do Sul colhe os frutos que plantou. O estado fez o dever de casa em termos de desburocratização, criando um ambiente de negócios favorável a investimentos, e atualmente cuida da infraestrutura social para acolher empreendimentos como esses.
Vale dizer que o setor brasileiro de árvores cultivadas para fins industriais e de restauração de nativas, do qual a Arauco faz parte, tem hoje no Mato Grosso do Sul sua fronteira de expansão. No último ano, o crescimento da área plantada no estado foi de 320,6 mil hectares, segundo dados do Siga-MS – de longe o maior avanço no país.
Esse crescimento se dá sobre pastagens, em grande parte de baixa produtividade, transformadas em cobertura florestal. Levantamento do Atlas das Pastagens, da Universidade Federal de Goiás, mostra que há no Brasil mais de 100 milhões de hectares de terras antropizadas com algum nível de degradação. Essas terras têm enorme potencial para o cultivo de grãos, geração de energia, restauração de nativas e, também, para a produção de fibras.
A conclusão das obras do Sucuriú e da ferrovia está prevista para 2027. A fábrica receberá R$ 25 bilhões em investimentos e terá capacidade de produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano. Com ela, o Mato Grosso do Sul abrigará as duas maiores plantas de celulose de todo o globo. Já em funcionamento, temos a unidade da Suzano em Ribas do Rio Pardo, cujo investimento foi de R$ 22 bilhões e a capacidade de produção ultrapassa 2,5 milhões de toneladas de celulose ano.
O setor de árvores cultivadas também avança em projetos em outras regiões do país. O Projeto Natureza, da CMPC, prevê um investimento de R$ 24 bilhões em uma nova unidade industrial de celulose a ser instalada em Barra do Ribeiro (RS). A estimativa é de que a fábrica entre em operação no segundo semestre de 2029. No ano passado, por exemplo, Klabin e Bracell inauguraram empreendimentos importantes. A Unidade Piracicaba 2, da Klabin, recebeu investimentos de R$ 1,6 bilhão para produção de 240 mil toneladas de papel ondulado por ano. Já a unidade da Bracell em Lençóis Paulista é voltada para a produção de tissue.
Apenas agora no final do mês tivemos mais dois anúncios importantes: o BNDES aprovou R$ 82,5 milhões para a Irani ampliar a produção a partir de papel reciclado na fábrica de Vargem Bonita, no oeste de Santa Catarina. O equipamento já recicla 134 mil toneladas de aparas de papel por ano. O banco ainda aprovou R$ 122,55 projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Klabin nas unidades de Telêmaco Borba (PR) e Otacílio Costa (SC).
O ramal ferroviário da Arauco também foi antecedido por outros investimentos do setor para superação de desafios logísticos. Nos últimos anos, a Suzano e a Eldorado investiram em novos terminais portuários em Santos (SP) ou Itaqui (MA). A LD Celulose, no Triângulo Mineiro, firmou parceria com a VLI para criação de uma pera ferroviária, conectando seu depósito com a linha férrea, no trajeto até Portocel, em Aracruz (ES). No extremo sul da Bahia, a Veracel investiu em 25 km de rodovia e em uma ponte sobre o rio Jequitinhonha. E a Klabin consolidou um megacomplexo logístico no Porto de Paranaguá (PR), conectado à unidade Puma, em Ortigueira (PR), por uma ferrovia.
Fato é que nossas empresas sozinhas não dão conta de nossos gargalos. Um país como o nosso, de baixa poupança, precisa ser campeão de marcos regulatórios a fim de atrair o capital necessário para superar nossas carências – além de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos, há o problema da conectividade no campo, fator decisivo nos dias em que a internet das coisas e a inteligência artificial tornam o trabalho rural ainda mais produtivo.
Bons exemplos não faltam em nosso país, tanto em termos de gestão pública, como de iniciativas empresariais. É preciso usá-los de inspiração e modelo. Replicar o que deu certo para enfrentar nossos problemas é a receita de sucesso para transformar potencial em desenvolvimento capaz de gerar oportunidades reais para brasileiros desta e das próximas gerações.
Que lutemos sem cessar contra as obscuridades que nos mantêm num patamar socioeconômico muito aquém do poderíamos estar. Que sigamos o farol de um Brasil luminoso, fonte de prosperidade e inspiração para seguirmos na construção de um outro país, muito distante de onde estamos, e sempre mais próximo de onde merecemos estar.
Publicado em TheAgriBiz.



