Falta de aparas manterá preço pressionado no curto prazo

A cadeia nacional de embalagens seguirá pressionada pelo alto preço das aparas de papel no curto prazo, reflexo direto da escassez do insumo no País. Segundo especialistas, o aumento da oferta depende de políticas de gestão de resíduos e da atividade econômica,
‘Estamos claramente vendo na cadeia logística existente que não há de onde tirar apara para papelão ondulado. Chegamos nessa situação [de escassez] com uma taxa de 80% de reciclagem na cadeia. O que vai avançar daqui para frente depende da retomada das políticas de resíduos’, afirmou a presidente da Associação Brasileira de Papelão Ondulado (ABPO), Gabriella Michelucci,
Nem a volta dos catadores de lixo para as ruas, outro reflexo do aprofundamento da crise econômica, tem ajudado a melhorar o volume de aparas, porque não há matéria-prima disponível, lembrou a dirigente.
Com a atividade econômica em baixa no Brasil, o consumo de embalagens está consequentemente menor, reduzindo a disponibilidade de aparas para reaproveitamento. Mas além da retomada da economia, o equilíbrio na oferta de aparas depende também da implantação das políticas públicas de gestão de resíduos sólidos.
n’É importante lembrar que o desaquecimento da economia leva ao desaquecimento de políticas públicas e esperávamos estar mais adiantados nisso. Tudo isso é impactado pela situação econômica e tem reflexo no que vemos agora [falta de aparas]’, destacou a diretora de relações governamentais e institucionais da Indústria Brasileira de Árvores (lbá), Beatriz Milliet, ontem durante Conferência Latino-americana Anual da Risi.
A implantação dessas políticas, ressaltou ela, fica a cargo das prefeituras, que a retração da atividade econômica tiveram queda na arrecadação e agora estão com o caixa mais restrito, o que também influencia no andamento dessas iniciativas. Sem perspectivas de avanço no curto prazo, Gabriella, da ABPO, espera preços ainda elevados para as aparas em 2017.
Equilíbrio
De acordo com o economista e membro da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap), Pedro Vilas Boas, o preço das aparas de papelão ondulado no mercado interno já supera o patamar de R$ 700 por tonelada, mais que o dobro do valor cobrado ano passado, perto de R$ 300. ‘Um patamar mais equilibrado ficaria em torno de R$ 350 a tonelada. Mas a tendência neste e no próximo ano ainda é ver preços aumentando’, disse ele.
Vilas Boas acredita que a inserção do Brasil na cadeia global de aparas pode ajudar a equilibrar os preços. A entrada em outros mercados, porém, esbarra na baixa rentabilidad e. Diferente de países como a Inglaterra, onde cerca de 20% da receita do aparista é destinada à fonte, no Brasil essa fatia é de 60%, reduzindo a atrativida d e.
‘Apesar disso, tivemos um movimento recente de exportação de aparas de jornais e revistas para a China, que responde por 80% do que exportamos e de venda de papelão ondulado para a Índia. Vínhamos num crescimento gra n de, exportando 10 mil toneladas por mês, mas logo depois veio a alta nos preços das aparas e agora estamos com 2 a 3 mil toneladas exportadas por mês’, contou Vilas Boas.
O vice-presidente de fibra da consultaria de papel e celulose Risi, Kurt Schaefer, lembrou que há alguns anos o mercado chinês passou por uma crise no fornecimento de aparas, o que elevou as preços naquele período. Mas agora a produção e a consumo de papelão ondulado na China estão estáveis e a proporção de papel reciclada na composição do papelão está crescendo. ‘Na China temos agora um risco regulatório, porque eles estão impondo novos controles de qualidade exigindo papel reciclado para restringir as importações de aparas’, citou. Para garantir o fornecimento, os chineses querem aumentar a coleta doméstica de lixo reciclada. ‘Na Brasil, a implantação das políticas de resíduos sólidos pode ajudar, mas isso ainda fica restrito a coleta de embalagens de papel cartão’, lembrou Pedro Vilas Boas, da Anap.
Papelão ondulado
Gabriella, da ABPO, destacou também que a produção de papelão ondulado no Brasil ainda é pequena e quase tudo é consumido pelo mercado interno. A associação projeta 70 mil toneladas de papelão ondulado a menos este ano. Em 2015 foram expedidas 3,3 milhões de toneladas. Aqui, os fabricantes de papelão ondulado usam cerca de 80% de papel reciclado.
‘O mercado de papelão ondulado começou um movimento muito lentamente, mas existem tratativas entre empresas para a consolidação, em função do aumento de cus t os [de produção], porque a maioria dos fabricantes é integrada e tem alto uso de papel reciclado. Com a dificuldade de encontrar aparas no mercado, dá para imaginar a situação na qual essa indústria está’, contou Gabriella.
Segundo ela, esse movimento de consolidação teve início no ano passado e continuará avançando com todas as grandes fabricantes no Brasil procurando possíveis aquisições.
Dados da consultoria de papel e celulose Risi mostram que a demanda por papelão ondulado na América Latina cresceu 3,6% ao ano entre 2005 e 2015, mas as projeções para 2016 e 2017 mostram que o consumo no Brasil deve recuar 2,3%, enquanto Colômbia (+2,9%), México (+2,8%), Argentina (+0,9%) e Chile (+0,8%) avançam.
‘O Brasil tem o pior desempenho na perspectiva de crescimento, mas a demanda vai melhorar um pouco na Argentina e terá maior crescimento no México, onde a economia permanece boa e tem um impacto forte do consumo americano’, comentou o vice-presidente de papel para embalagem da Risi, Ken Waghorne. Ele veio ao País para a conferência latino-americana anual da consultaria.
Na avaliação dele, o melhor mercado para o Brasil exportar sua produção de papelão ondulado é a Argentina. Mas ele ponderou que uma empresa do setor já sinalizou que pode iniciar a fabricação do produto naquele país, de olho nesse potencial.
Já no mercado global, Waghorne vê uma redução nas transações entre países, resultado dos problemas econômicos em alguns deles. ‘Temos que pensar mais em 2018, quando teremos um aumento de fato na demanda global. Mas é preciso superar alguns problemas como o fato de que a capacidade de produzir papelão ondulado deve superar a demanda em muitas regiões, dificultando exportações’, disse ele. Nesse cenário, importar o produto ficará mais atrativo em função do excesso de oferta.
Veículo: DCI



