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Agronegócio: Demanda externa sustentável demanda expansão

Apesar da retração doméstica provocada pela crise, indústrias ampliam a produção para atender a previsão de aumento do consumo nacional e internacional a longo prazo..... - Por Rita Cirne
28/07/2017

Apesar da retração doméstica provocada pela crise, indústrias ampliam a produção para atender a previsão de aumento do consumo nacional e internacional a longo prazo

Por Rita Cirne

O mercado externo é que sustenta o segmento de papel, celulose e painéis de madeira nesta época de crise econômica e politica. Com novas unidades fabris – a da Klabin, em operação desde meados do ano passado, e a da Fibria, projetada para iniciar a produção no segundo semestre deste ano, o setor convive com a expectativa de mudanças como a vendada Eldorado Brasil, produtora de celulose controlada pela J&F Investimentos, holding dos irmãos Batista, para a chilena Arauco. A negociação é preservada por um acordo de confidencialidade entre as partes.

De acordo com Elizabeth de Carvalhaes, presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), o início das operações da fábrica da Klabin levou a produção nacional de celulose acrescer 8,1% no ano passado, para 18,7 milhões de toneladas. Com este volume, o Brasil ultrapassou a China e o Canada no ranking de maiores produtores de celulose no mundo, ficando atrás só dos Estados Unidos. Neste ano, no segundo semestre, a inauguração da nova fabrica da Fibria, em Três Lagoas (MS), devera adicionar 440 mil toneladas à produção nacional.

‘Na área de celulose, a indústria tem ido bem, muito em função do mercado internacional, principalmente porque as fábricas da Indonésia que iam entrar em operação adiaram seus projetos. Como esse mercado tem uma demanda aquecida e não tem sobreoferta de produtos, é possível precificar melhor os produtos, com resultado financeiro mais favorável para as indústrias. Foram exportados 5,5 milhões de toneladas nos primeiros cinco meses deste ano, expansão de 4,7% em relação a igual período de 2016’, diz Elizabeth.

Para o papel, a produção destinada ao mercado interno ainda se ressente com a crise. Em maio, as vendas ficaram estáveis, mas no acumulado dos cinco primeiros meses do ano, o consumo doméstico de papéis tiveram uma baixa de 2,3%, com 2,13 milhões de toneladas. Em sua opinião, oque tem ajudado o segmento é o fato de o Brasil ter diminuído a importação de papéis ao mesmo tempo que as industrias intensificaram as exportações para a América Latina.

“No momento, não temos anúncio oficial de novas plantas industriais, mas, se olharmos para o consumo de papel no mundo, observaremos que temos oportunidades a longo prazo. Se avaliarmos a performance dos países emergentes, eles registram um incremento de 2,7% ao ano no consumo de papéis de embalagem. As pessoas estão se alimentando melhor, consumindo mais remédios, o que demanda mais embalagens. Além disso, o papel de impressão cresce em média 1% ao ano. Se aumenta o consumo de papel, naturalmente o de celulose cresce também“, afirma Elizabeth.

Algumas empresas estão se voltando para novos nichos, como é ocaso da Suzano Papel e Celulose, a segunda maior produtora global de celulose de eucalipto e uma das cinco maiores do mercado. Segundo Michelle Lourenço Corda, gerente de relações com investidores, a empresa iniciara a produção neste ano de papel tissue (fins sanitários), vendido como papel higiénico, lenços de papel etc. e dá andamento a seu projeto de lignina, um subproduto da celulose capaz de substituir deriva dos de petróleo em aplicações de alto valor agregado em indústrias e segmentos diversos.

‘A demanda global por celulose continua em elevação, influenciada pelo aumento de consumo de papéis tissue e de embalagens no mercado asiático. Apesar de não ter grande representatividade nos negócios da empresa, a demanda por celulose fluff vem crescendo cerca de 6% ao ano e, por isso, este novo mercado representa uma importante avenida de crescimento’, afirma Michelle. Segundo ela, “a celulose fluff, utilizada na confecção de fraldas e absorventes femininos, continuará a crescer devido ao aumento de pessoas com acesso a renda e ao envelhecimento populacional, que aumenta a demanda por fraldas geriátricas”.

Michelle diz que o plano de investimento da Suzano em 2017 é de R$ 1,8 bilhão, dos quais R$ 1,1 bilhão para manutenção, incluindo operações florestais e industriais, e R$ 700 milhões para modernização de fabricas e estação de tratamento de efluentes, e nos negócios adjacentes, como tissue e lignina. A expectativa é repetir o desempenho de 2016, quando produziu3,47 milhões de toneladas de celulose e 1,18 milhão de toneladas de papel. Para 2017, projeta produção de 3,5 milhões de toneladas de celulose e de 1,2 milhão de toneladas de papel. As exportações devem seguir no mesmo ritmo de 2016, representando 75% do volume vendido.

Carlos Justo, gerente de planejamento e competitividade da Eldorado Brasil, não pode comentar as negociações de venda da empresa com a Arauco, mas afirma que o momento é positivo para a celulose. Isso porque o aumento da demanda de celulose branqueada de fibra curta no mundo foi da ordem de 7,5% no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período de 2016, o que corresponde a 570 mil toneladas. Esse aumento é consistente, porque em 2016 a média de crescimento foi de 6%. A maior demanda vem da China, que corresponde a 46% do consumo de produtos brasileiros.

‘A Eldorado produziu no primeiro trimestre 433 mil toneladas, um recorde que teve uma evolução boa em termos de custos, porque aumentamos o consumo de madeira própria. O custo caixa de produção da Eldorado, que dimensiona a competitividade das linhas de produção de celulose, esta hoje em R$ 533 a tonelada. É o mais competitivo do Brasil, sendo 16% inferior ao da Suzano e 18% inferior ao da Klabin. No mercado inferno, a demanda se manteve com um aumento em segmentos específicos, como a celulose destinada à fabricação de papel higiênico, fraldas e absorventes’, diz Justo.

Segundo ele, o setor vai na contramão e mostra aumento da produtividade. A Eldorado tem 340 mil hectares de terras plantadas, com produção anual de 1,7 milhão de toneladas de celulose, precisando de 150 mil hectares de eucalipto para atendimento de sua fábrica.

‘Com isso, temos um excedente de eucalipto que se destina a projetos de expansão de produção. Por enquanto, temos um terço da madeira que consumimos produzido por terceiros, fruto de contratos anteriormente assinados. Mas em 2018 vamos utilizar 100%de madeira própria, o que vai reduzir mais o nosso custo caixa, porque a produção está localizada 100% no Mato Grosso do Sul. Fica mais perto de nossa fábrica e exige menos gastos com transporte. Neste ano, vamos investir RS 300 milhões em plantio e manutenção de florestas e temos outros investimentos em projetos’, ressalta.

A Klabin informa quedo total previsto em seu plano de investimentos para este ano, que é de R$ 1,01 bilhão, cerca de R$ 684 milhões são para manutenção, dos quais um terço para atividades florestais, que englobam replantio, preparo de solo, silvicultura, manutenção das florestas e outras atividades.

A capacidade de produção anual da Klabin é de dois milhões de toneladas de papel e 1,5 milhão de toneladas de celulose. Após um ciclo de investimentos em aumento de capacidade e expansão, o planejamento para 2017 está focado em operar com capacidade total e continuar explorando a eficiência operacional.

A empresa informa que no mercado de celulose é a única do país a produzir, a partir de uma mesma unidade industrial, celulose de fibra curta, celulose de fibra longa e celulose fluff. Quarta maior produtora de celulose fluff do mundo e com pouco mais de um ano de operação da unidade Puma, a empresa ingressou em 80% do mercado brasileiro e exporta o produto para mais de 23 países.

Na área de painéis de madeira, a produção deste ano deve manter o mesmo volume de 2016. De acordo com Flávio Maluf, presidente da Eucatex, a produção da empresa deve se manter em 900 mil metros cúbicos de painéis de madeira. ‘Como o mercado interno teve uma pequena redução, compensamos aumentando as exportações, mesmo com o câmbio não tão favorável. Em 2016, as exportações representaram 14% do faturamento, mas com o câmbio desfavorável, este ano deve representar 12%’, diz Maluf.

No primeiro quadrimestre do ano, as exportações de painéis de madeira tiveram um aumento de 39,8% em comparação ao mesmo período de 2016, segundo a Ibá. De acordo com Maluf, isso ocorreu em função da queda nas vendas de fibras do tipo MDP, que se destinam à indústria do móvel seriado, vendido nos grandes magazines. Para ele, hoje há mais facilidade em comprar móveis nas marcenarias, que, embora um pouco mais caros, são personalizados. Com isso, as fibras MDP tiveram que ser exportadas, para que não fosse necessário parar a produção das fábricas. Neste ano a Eucatex vai investir 10% a menos dogue em 2016. No ano passado, os investimentos somaram R$ 93 milhões ante R$ 85 milhões em 2017.

Na Duratex, também fabricante de painéis de madeira, o diretor de administração, finanças e relação com investidores, Carlos Henrique Haddad, afirma que os investimentos são da ordem de R$ 420 milhões, divididos entre a formação de novas florestas e a manutenção industrial e novos projetos. ‘Apesar do cenário de curto prazo desafiador, não deixamos de investir, porque acreditamos na geração de valor desses investimentos futuramente. Temos a expectativa de um ligeiro aumento na produção de painéis de madeira para este ano. Na exportação, as expectativas são de crescimento.

Nos últimos anos, saímos de uma base baixa de volumes exportados, portanto, o crescimento foi acelerado. Na medida em que nossa operação de exportação ganha escala, os saltos de crescimento tendem a ser menores’, diz.

Segundo Haddad, o aumento das exportações de painéis de madeira no primeiro quadrimestre do ano foi para compensar a estagnação do mercado interno, que sofre com a queda na renda do consumidor, os juros elevados e a forte desaceleração da construção civil, deixando o mercado restrito a reformas, sem muitos investimentos novos.

 

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