Associadas em Pauta

De câmeras a joaninhas: como gigantes florestais inovam para proteger animais

Empresas de papel, celulose e florestas contam à EXAME como investem em tecnologia e monitoramento para equilibrar produção e conservação da biodiversidade.
07/01/2026

Da onça-parda aos pequenos anfíbios noturnos, passando por jacupembas e tamanduás-bandeira, as florestas de eucalipto no Brasil têm se tornado refúgio para centenas de espécies — muitas delas ameaçadas de extinção. Em um país onde a pressão sobre habitats naturais é crescente, as áreas de manejo florestal certificadas estão desempenhando um papel cada vez mais relevante na conservação da fauna silvestre, aliando a produção industrial à proteção ambiental.

O monitoramento da biodiversidade nessas áreas revela números expressivos. A Dexco, por exemplo, já registrou mais de 2.600 espécies de fauna e flora em suas florestas desde a década de 1970. A Suzano contabiliza mais de 4.500 espécies identificadas desde 1989, incluindo 190 ameaçadas e 180 endêmicas. A Klabin chegou a 1.971 espécies de flora e 946 de fauna até 2024, sendo 70 ameaçadas de extinção. Já a Eucatex registrou 355 espécies da fauna, com 55 endêmicas da Mata Atlântica.

“Dentro dos princípios e critérios do FSC, a conservação da biodiversidade dos ambientes associados às florestas plantadas é essencial e já está dentro dos requisitos”, explica Elson Fernandes de Lima, diretor-executivo da FSC Brasil. “Uma empresa que possui áreas de floresta plantada deve identificar dentro da sua base produtiva quais os locais que são relevantes para a conservação da fauna.”

Tecnologia a serviço da natureza

O avanço tecnológico tem sido fundamental para ampliar a capacidade de monitoramento. Câmeras trap com sensores de movimento e temperatura, gravadores autônomos de áudio, drones equipados com câmeras e até análise de DNA ambiental fazem parte do arsenal utilizado pelas empresas para identificar e acompanhar espécies — inclusive aquelas de difícil visualização, como animais noturnos e insetos.

“Há alguns anos, tornou-se mais popular o uso de câmeras, que passaram a registrar mamíferos, por exemplo. E isso fez com que pudesse se aumentar o esforço em campo, como se cada câmera fosse um pesquisador em tempo integral observando aquele ponto”, afirma Lima.

A Klabin utiliza inteligência artificial para processar e triar os grandes volumes de informação coletados. Darlon Orlamunder de Souza, diretor de Sustentabilidade, Inovação e P&D da empresa, explica que a tecnologia acelera a organização de imagens e áudios, apoiando a identificação preliminar de espécies, mas sempre com validação final por profissionais especializados.

Na Suzano, a parceria com a Universidade Federal de Viçosa resultou no uso de drones com sensores termais para localizar grupos de primatas e monitorar seus hábitos de deslocamento. Giordano Automare, gerente executivo de Sustentabilidade da empresa, explica. “Essas tecnologias ampliam nossa capacidade de gerar informações científicas, apoiar decisões de manejo e garantir que nossas operações sejam cada vez mais alinhadas à proteção da biodiversidade”, conta.

Mosaicos e corredores ecológicos

A estratégia de manejo em mosaico — que intercala áreas de produção com fragmentos de vegetação nativa em diferentes idades — tem sido adotada pelas principais empresas do setor. Esse modelo aumenta a conectividade entre ambientes e favorece a circulação da fauna.

A Klabin é uma das companhias a adotar esta prática, como explica Orlamunder de Souza. “O modelo cria corredores ecológicos que conectam áreas nativas e plantadas e favorecem a circulação da fauna”, afirma. A companhia mantém 911 mil hectares de área total, sendo 41% de áreas nativas conservadas.

A Suzano preserva cerca de 1,1 milhão de hectares de vegetação nativa — aproximadamente 40% de sua área total — e mantém 72 Áreas de Alto Valor de Conservação. “Trabalhamos com bacias hidrográficas como unidade de planejamento, pois entendemos que a vida se organiza a partir da água e que essa escala é essencial para garantir equilíbrio ecológico”, afirma Automare.

Espécies ameaçadas encontram refúgio

O monitoramento contínuo tem revelado a presença de espécies ameaçadas de extinção nas áreas florestais. A Eucatex registrou 34 espécies com algum grau de ameaça, incluindo onça-parda, jaguatirica, tamanduá-bandeira e cateto. “Nos levantamentos, tais espécies continuam ocorrendo nas áreas e não foi identificado impacto negativo do manejo florestal da Eucatex na conservação”, afirma Naiara Carvalho, gerente de Tecnologia, Meio Ambiente e ESG da empresa.

A Dexco, que realiza estudos sobre biodiversidade desde os anos 1970, destaca a atuação em casos específicos. Um exemplo é uma área em Minas Gerais onde está presente uma espécie de anfíbio endêmica do Triângulo Mineiro. “Nesse caso, além do monitoramento populacional, também é acompanhada a qualidade da água, recurso essencial para a manutenção da espécie”, explica Lennon Franciel, especialista em Sustentabilidade da companhia.

Lima, do FSC Brasil, ressalta que há casos de retorno de espécies, mesmo as de grande porte, como a onça-pintada. “A partir desse momento, se destacam atividades para conservação e para compreensão da ocorrência dessas espécies”, diz.

Prevenção de impactos

As medidas para evitar efeitos aos habitats incluem desde treinamento de equipes até o uso de tecnologias. Na Dexco, são adotadas cercas virtuais em locais que demandam cuidados especiais, como computadores de bordo que alertam os operadores sobre a proximidade dessas áreas, evitando intervenções indevidas. “Essas tecnologias contribuem para tornar as operações mais precisas e seguras, conciliando eficiência produtiva com maior proteção da fauna”, afirma Franciel.

A Suzano, que adotou uma Política de Desmatamento Zero desde 2020, desenvolveu uma Estratégia de Natureza em colaboração com a União Internacional para a Conservação da Natureza, que ajuda a transformar diretrizes em prática no dia a dia das operações. “Fortalecemos ações de prevenção e mitigação de impactos. Dessa forma, reforçamos a aplicação da hierarquia da mitigação — evitar, reduzir, restaurar, regenerar e transformar — como base para planejar e executar as atividades”, explica Automare.

Fauna integrada à produção

Algumas empresas têm desenvolvido iniciativas que geram benefícios mútuos entre conservação e produção. A apicultura é um dos exemplos mais bem-sucedidos. A Eucatex mantém desde 2004 o Programa Polinizar, que apoia apicultores locais no desenvolvimento de colmeias, aproveitando a florada do eucalipto. O programa já produziu mais de 320 toneladas de mel e beneficia cerca de 30 famílias de comunidades rurais.

Em um projeto similar, a Klabin conquistou em 2025 a certificação FSC para o mel produzido na Serra Catarinense — um reconhecimento inédito nas Américas. “Esse modelo gera benefícios múltiplos: fortalece a conservação da fauna, promove um produto orgânico e certificado e ainda cria trabalho e renda para produtores locais, incentivando o desenvolvimento sustentável regional”, afirma Souza.

Mas a integração da fauna vai além. A Suzano inovou ao utilizar joaninhas para controle biológico de pragas, técnica inédita no Brasil. Em 2024, a empresa liberou 210 mil joaninhas em 57 mil hectares e evitou o uso de 17 toneladas de defensivos agrícolas, gerando economia superior a R$ 3 milhões a partir da utilização desse “exército” de pequenos insetos. “Inovação e sustentabilidade caminham juntas na Suzano, e o uso de joaninhas como controle biológico reflete esse compromisso”, destaca Maurício Magalhães Domingues, pesquisador da companhia.

Serviços ecossistêmicos

Para Lima, do FSC Brasil, a fauna desempenha serviços ecossistêmicos fundamentais. “É importante para uma boa produção florestal que haja recursos hídricos sendo fornecidos em bom estado de conservação e de qualidade, para que as florestas cresçam e continuem produzindo conforme o esperado”, explica. “Para que isso aconteça, é importante que a gente tenha uma conservação ambiental no entorno dos córregos e riachos. Quem pode desempenhar esse papel pode ser a fauna.”

Lima, do FSC Brasil, reforça que os monitoramentos detectam mudanças. “Uma espécie que tem uma certa sensibilidade e ela vem consistentemente sendo registrada e a partir de algum momento essa espécie deixa de ocorrer numa determinada área. Então é para isso que os monitoramentos podem ser adotados, para também detectar mudanças num ambiente que sejam eventualmente negativas e que isso desencadeie uma necessidade de realização de ações para reverter esse quadro.”

As empresas têm estabelecido metas ambiciosas. A Suzano divulgou em 2020 o Compromisso para Renovar a Vida de Biodiversidade, com a meta de conectar 500 mil hectares de áreas prioritárias para conservação no Cerrado, Mata Atlântica e Amazônia até 2030. Ao todo, já conectou 157.889 hectares acumulados.

A Klabin também lançou, em 2024, o Plano de Conservação da Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, com meta de alcançar ganho líquido de biodiversidade até 2050.

“Quanto mais se conservar os ambientes e o mais próximo isso tiver em relação à sua integralidade no sentido mais amplo mesmo de conservação, mais benéfico é para todo o ambiente e para as áreas produtivas que estão adjacentes”, conclui Lima. “Essa deve ser a busca.”

Publicado em Exame

Notícias mais recentes

Em iniciativa pioneira no setor, Suzano desenvolve operação remota de colheita florestal em MS
Associadas em Pauta

Em iniciativa pioneira no setor, Suzano desenvolve operação remota de colheita florestal em MS

Icon
Eucatex | O eucalipto que gera produtos, conserva e transforma
Associadas em Pauta

Eucatex | O eucalipto que gera produtos, conserva e transforma

Icon