Setor de árvores cultivadas defende ampliar diálogo sobre uso de biotecnologias

Como garantir florestas produtivas e saudáveis num clima que muda mais rápido do que a capacidade de adaptação das árvores? Essa foi a pergunta que pautou, nos dias 14 e 15 de outubro, em São Paulo, o Executive Roundtable on Biotechnology for Climate-Resilient Forests. Promovido pela Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), com apoio técnico e científico do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF) e moderação do professor Marcos Jank, do Insper, o encontro deu início a um diálogo internacional, baseado em ciência, sobre o papel das biotecnologias no futuro das florestas cultivadas. O evento reuniu mais de cem lideranças do setor de árvores cultivadas, entre os quais Paulo Hartung e Horacio Lafer Piva, respectivamente presidente e presidente do Conselho da Ibá, além de pesquisadores e especialistas do Brasil e do exterior.
O ponto de partida foi um diagnóstico de urgência. As árvores plantadas hoje precisam prosperar num clima incerto e em rápida transformação, ao mesmo tempo em que a demanda por madeira cresce. “Vamos ter um aumento muito grande na demanda por madeira industrial em tora, de 2 para 3,6 bilhões de metros cúbicos, daqui até 2050, com desmatamento líquido zero. Ou seja, o crescimento terá que vir das florestas cultivadas já existentes”, afirmou Jank, com base em projeções da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Segundo Jank, a produtividade das florestas cultivadas brasileiras está estagnada desde 2010, enquanto a variabilidade climática e a pressão de pragas e doenças têm aumentado consideravelmente nos últimos anos. Dados do IPEF mostram que a parcela da área monitorada de eucalipto atacada por pragas no Brasil subiu de uma média anual de 14% para 32%, com pico de 76% em 2025. Um estudo publicado na revista Earth Systems and Environment projeta que, com aquecimento global de 4°C, até 89% das áreas de eucalipto no mundo podem sofrer com baixa disponibilidade hídrica.
O primeiro dia do roundtable foi organizado em três grandes painéis. A conversa de abertura tratou dos impactos das mudanças climáticas para os negócios e as florestas. Já o segundo apresentou as rotas da biotecnologia, do melhoramento genético convencional à edição gênica e à modificação genética. Por fim, o terceiro trouxe convidados que discutiram regulação, certificação e a percepção da sociedade sobre essas tecnologias. Depois de cada painel, os temas seguiram em debate nas mesas, num formato pensado para que todos os participantes contribuíssem.
As apresentações reuniram cientistas de universidades do Brasil, dos Estados Unidos e da África do Sul, além de empresas que já desenvolvem essas tecnologias, como é o caso da FuturaGene e da TreeCo. Entre os palestrantes convidados, estiveram José Luiz Stape (Unesp), Bernard Slippers (Universidade de Pretória), Steve Jacobsen (UCLA), Dror Avisar (FuturaGene), Rodolphe Barrangou (TreeCo e North Carolina State University), Steve Strauss (Oregon State University), o consultor Estevão do Prado Braga e Fred Gould (North Carolina State University).
Para o embaixador José Carlos da Fonseca Jr., diretor de Relações Internacionais da Ibá e também painelista do encontro, a resiliência climática deixou de ser apenas uma questão ambiental. “Somos um setor da bioeconomia. Nossos ativos são biológicos e dependem diretamente da temperatura, da chuva, do solo e das pragas. Isso influencia como as empresas acessam capital, chegam aos mercados e garantem o abastecimento dos clientes. Nesse sentido, não há como falarmos de capacidade de negócio sem tratarmos da resiliência climática”, afirmou
Um dos eixos centrais das discussões foi como aproximar as regras dos sistemas de certificação internacionais, como FSC e PEFC, que hoje restringem o uso dessas biotecnologias, do conhecimento científico mais recente. No Brasil, a CTNBio já aprovou 11 eventos de eucalipto geneticamente modificado e, em 2026, também um eucalipto com edição gênica. O primeiro deles passou por cinco anos de monitoramento pós-aprovação sem efeitos adversos. Ainda assim, essas árvores não são plantadas em escala comercial. Isso porque as diretrizes das certificações foram definidas no início dos anos 2000, quando se tinham poucas respostas da ciência sobre os efeitos de longo-prazo da tecnologia, justificando a adoção do princípio da precaução.
“As certificações internacionais são muito respeitadas e têm um papel importante para o setor desde os anos 1990. A pergunta que fazemos é se não estamos perdendo oportunidades de avançar na fronteira do conhecimento para enfrentar pragas e doenças que se agravam com as mudanças climáticas”, pontuou o embaixador, destacando avanços da pesquisa científica no setor ao longo das duas últimas décadas. “Queremos mostrar às certificações que essa discussão não é uma ameaça reputacional, mas uma oportunidade de a certificação estabelecer uma referência para o uso responsável dessas biotecnologias, construída dentro da sua própria governança, com as perspectivas de ONGs, sindicatos e da sociedade civil”, afirmou Camilla Marangon, gerente de Sustentabilidade e Políticas Florestais da Ibá e coordenadora do encontro.
A necessidade de cooperação também foi um ponto de convergência entre os participantes. Para eles, a resiliência das florestas cultivadas é um ativo compartilhado, que nenhuma empresa ou país será capaz de proteger sozinho. Entre os caminhos apontados estão a ampliação da capacidade de pesquisa e a colaboração entre empresas em desenvolvimentos pré-competitivos, que fortaleçam o setor como um todo e permitam que os benefícios cheguem a toda a cadeia, inclusive aos pequenos produtores.
Na sessão de encerramento, os participantes consolidaram os próximos passos. A agenda inclui a construção de coalizões, dentro e fora do setor, e a busca por regras de certificação que considerem as condições locais e as avaliações de biossegurança de cada país. Com a sociedade, o caminho é o debate aberto e transparente, com uma comunicação mais clara sobre por que essas tecnologias importam para os trabalhadores, a água, e o clima, por exemplo. As conclusões serão reunidas num documento técnico-executivo, elaborado com apoio científico do IPEF, que será amplamente compartilhado.
A programação incluiu ainda uma visita aos laboratórios da FuturaGene, braço de biotecnologia da Suzano, para que os participantes conhecessem de perto o que já vem sendo desenvolvido no setor. Executivos e pesquisadores puderam ver como a empresa tem trabalhado em variedades de eucalipto geneticamente modificado (GM) com tolerância a herbicidas e resistência a insetos.
O setor brasileiro de árvores cultivadas já mostrou que produção e conservação podem e devem caminhar juntas. Segundo dados da Ibá apresentados por Horacio Lafer Piva, presidente do Conselho, hoje são 10,7 milhões de hectares de plantios produtivos e uma estimativa de cerca de 7,2 milhões de hectares de vegetação nativa conservada. “Precisamos agir hoje para manter nossas florestas produtivas e competitivas. Isso significa combinar visão de longo prazo, evidências, inovação responsável e cooperação internacional”, afirmou. O encontro foi apresentado como o início de um processo, que deve se ampliar para as certificações, organizações da sociedade civil e outros stakeholders. “Não estamos mirando uma linha de chegada. Este é um ponto de partida, e teremos outras discussões como esta, que são muito necessárias. É uma estratégia paciente, de construção, em que todas as perspectivas e opiniões são ouvidas e respeitadas”, reforçou o embaixador José Carlos da Fonseca Jr.



