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Quando o risco de incêndios se torna sistêmico: o que muda para indústrias baseadas na natureza

O aumento dos incêndios florestais simultâneos impõe novos desafios à sustentabilidade global. Entenda as estratégias de resiliência e a importância da gestão de paisagens na economia de baixo carbono.
09/04/2026

*por Carlos Anibal Almeida, vice-presidente executivo de Suprimentos Global, FuturaGene e Novos Negócios na Europa, e Douglas Lazaretti, vice-presidente executivo Florestal – ambos da Suzano

Um artigo publicado em fevereiro de 2026 na Science Advances traz uma perspectiva importante e, em certa medida, inquietante para o debate global sobre mudanças climáticas. O estudo mostra que as condições extremas de clima favoráveis a incêndios não estão apenas se tornando mais frequentes, mas também cada vez mais sincronizadas entre diferentes regiões do mundo. Isso significa que grandes áreas do planeta podem vivenciar simultaneamente a combinação de calor, seca, baixa umidade e ventos que favorecem a ocorrência e a propagação de incêndios.

Historicamente, as temporadas de incêndio tendiam a ocorrer de forma mais escalonada entre regiões, permitindo que recursos de combate ao fogo e expertise fossem deslocados de um local para outro. A nova pesquisa indica que essa dinâmica pode estar mudando.

Segundo o estudo, os eventos de clima extremo favorável a incêndios ocorrendo simultaneamente em diferentes regiões aumentaram significativamente desde 1979, e em várias partes do mundo o número de dias sincronizados se multiplicou nas últimas duas décadas. Para setores diretamente dependentes de sistemas naturais, isso não é apenas um sinal climático. É também um sinal de negócio.

Um risco estrutural para cadeias de valor baseadas na natureza

Os incêndios já representam um dos impactos mais visíveis das mudanças climáticas. Mas os achados desse estudo revelam algo mais profundo: o caráter sistêmico do risco climático.

A silvicultura baseada em plantios comerciais, incluindo eucalipto e outras espécies de rápido crescimento, depende de condições climáticas relativamente estáveis para sustentar produtividade, ciclos de rotação e planejamento de longo prazo. Quando condições extremas favoráveis a incêndios se tornam mais frequentes e espacialmente sincronizadas, os impactos vão muito além de interrupções operacionais localizadas.

Eles afetam:

  • a produtividade florestal e os ciclos de rotação;
  • a estabilidade das cadeias de suprimento de biomassa;
  • o equilíbrio entre oferta e demanda de produtos derivados da madeira, e, sobretudo,
  • a resiliência das paisagens e dos ecossistemas.

Em um setor no qual a demanda global por madeira industrial deve crescer de forma significativa nas próximas décadas, surge um paradoxo complexo: a demanda por materiais renováveis continua aumentando enquanto a estabilidade climática diminui. Nesse contexto, o setor florestal se encontra no centro de uma das tensões mais importantes da transição climática.

De um lado, biomateriais derivados da madeira são fundamentais para substituir produtos de origem fóssil e viabilizar uma economia de baixo carbono. De outro, os ecossistemas que produzem essa biomassa estão cada vez mais expostos à volatilidade climática.

Da gestão de risco à estratégia de resiliência

A questão, portanto, deixa de ser se os riscos climáticos irão se intensificar e passa a ser como as indústrias se organizam para operar nessa nova realidade.

A experiência de empresas florestais que já atuam em regiões de alto risco oferece algumas lições iniciais. No Brasil, por exemplo, condições de seca extrema e altas temperaturas contribuíram para uma das temporadas de incêndios mais severas dos últimos anos em 2024. Em resposta, empresas reforçaram sistemas integrados de gestão de incêndios que combinam prevenção, monitoramento, detecção rápida e colaboração com comunidades locais e autoridades públicas.

Essas respostas ilustram uma mudança importante: a gestão de incêndios não pode mais depender apenas da capacidade de resposta após o início do fogo. Ela exige uma abordagem sistêmica que integre:

  • monitoramento em escala de paisagem;
  • tecnologias de detecção precoce;
  • brigadas treinadas e capacidade de resposta rápida;
  • colaboração com comunidades locais e povos tradicionais;
  • coordenação com governos e outras empresas do setor.

Ao mesmo tempo, a resiliência também depende de uma gestão ambiental mais ampla. Conectividade de paisagens, conservação da biodiversidade e restauração de ecossistemas desempenham um papel fundamental para manter o equilíbrio ecológico que reduz a vulnerabilidade ao fogo no longo prazo.

Transformando ciência climática em resiliência operacional

Para empresas que atuam em setores baseados na natureza, responder a essa nova realidade climática exige mais do que reconhecer os riscos. Exige incorporar a resiliência na forma como paisagens, florestas e cadeias de suprimento são planejadas e geridas.

Esse é o caminho que vem sendo adotado pela Suzano. A resiliência climática tornou-se um pilar central da estratégia de sustentabilidade da companhia, orientando ações que vão desde descarbonização e conservação da biodiversidade até genética e o manejo florestal, além da prevenção de incêndios.

No nível operacional, isso se traduz em uma abordagem abrangente de gestão de incêndios que combina prevenção, monitoramento e resposta rápida. Investimentos em sistemas de detecção precoce, monitoramento por satélite e brigadas treinadas são complementados por parcerias com comunidades locais e tradicionais, autoridades públicas e outras empresas do setor. Esses esforços já apresentam resultados concretos, incluindo a redução significativa da ocorrência de incêndios em áreas de plantios de eucalipto e de matas nativas nos últimos anos. Só em 2024, a redução foi de 61% de incêndios nas propriedades da companhia.

Essa atuação vai além da operação direta e se estende às comunidades e geografias do entorno. A Suzano vem estruturando uma agenda consistente de prevenção por meio do engajamento com comunidades locais, reconhecendo que a gestão do risco de incêndios exige uma abordagem coletiva. Esse engajamento acontece, por exemplo, a partir do Projeto Guardiões da Floresta, que fortalece a atuação preventiva e colaborativa na proteção das áreas florestais sob gestão da empresa, em 2025, foram realizadas mais de 23 mil abordagens em campo, alcançando cerca de 48 mil pessoas, com conteúdos relacionados à prevenção de incêndios florestais, combate à caça ilegal e enfrentamento ao desmatamento. Nesse mesmo período, o projeto foi ampliado para 30 escolas, impactando diretamente 1.633 estudantes. O projeto existe desde 2023 nos estados da Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

A Suzano também apoia nove brigadas indígenas do Maranhão a combaterem incêndios em todos os territórios indígenas do estado. Desde 2022, fornecemos infraestrutura e logística de atuação, como equipamentos de proteção individual e outros itens. Essas brigadas atuam por meio do Programa de Brigadas Federais do Prevfogo/Ibama, em cooperação técnica com a Funai. Além da prevenção e do combate aos incêndios, as brigadas trabalham na recuperação de áreas degradadas pelo fogo e nos viveiros de produção de mudas. Por meio dessa iniciativa, mais de 850 mil hectares e 15 mil indígenas são protegidos.

Além das medidas operacionais, a companhia vem fortalecendo estratégias em escala de paisagem que integram áreas produtivas com vegetação nativa e ecossistemas protegidos. Essa abordagem reconhece que processos ecológicos ultrapassam os limites das propriedades e que manter paisagens saudáveis é essencial para a resiliência de longo prazo.

Ao mesmo tempo, a Suzano ampliou sua ambição climática ao alinhar suas metas à iniciativa Science Based Targets (SBTi) e avançar em iniciativas relacionadas a energia de baixo carbono, soluções baseadas em biomassa e uso sustentável da terra. Essas ações reforçam o papel das indústrias florestais tanto na mitigação das mudanças climáticas quanto na adaptação aos seus impactos.

Em um contexto no qual extremos climáticos se tornam mais frequentes e interconectados, estratégias como essas demonstram como empresas podem evoluir de uma gestão reativa de riscos para uma construção proativa de resiliência.

Olhando para frente: resiliência como prioridade setorial

A ciência é cada vez mais clara: as mudanças climáticas não apenas intensificam eventos extremos, mas também transformam sua dinâmica espacial e temporal.

Para indústrias baseadas em capital natural, isso significa operar em um ambiente em que a volatilidade deixa de ser exceção e passa a ser uma condição estrutural.

Empresas como a Suzano mostram como o setor de árvores plantadas pode responder a essa realidade combinando disciplina operacional, estratégias climáticas baseadas na ciência e gestão de paisagens em larga escala. Mas a magnitude do desafio também deixa evidente que a resiliência não será construída apenas por empresas individuais.

Fortalecer a resiliência do setor de árvores plantadas exigirá maior colaboração entre empresas, governos, instituições de pesquisa e comunidades locais. Desde avanços em biotecnologia e manejo florestal adaptado ao clima até sistemas mais robustos de prevenção de incêndios e governança territorial, as soluções precisarão ser sistêmicas.

Em um mundo em que condições extremas de incêndio podem ocorrer simultaneamente em diferentes continentes, o futuro das indústrias baseadas em florestas dependerá cada vez mais da capacidade coletiva do setor de antecipar riscos, adaptar paisagens e garantir a sustentabilidade de longo prazo dos materiais renováveis dos quais a economia global depende cada vez mais.

Saiba mais

Convidamos você a acessar o Relatório de Sustentabilidade 2025 da Suzano e saber mais sobre nosso negócio, nossa estratégia e nossas práticas.

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