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Produção limpa dá o tom na indústria

Criado: 16 novembro 2015

Valor Econômico

Por Paulo Vasconcellos


O Brasil é o maior produtor mundial de celulose de fibra curta e o nono colocado na produção de papel, mas ganha evidência no ranking pela sustentabilidade das florestas plantadas e do processo de transformação da madeira com um baixo custo de produção e elevado índice de produtividade.

Modelos de manejo voltados à preservação da diversidade biológica, o desafio de um ciclo de produção limpa que impulsionou as empresas a buscar a autossuficiência energética e a utilização de fontes renováveis ajudam a garantir o balanço ambiental equilibrado. Os efeitos têm impactos sociais. A diversificação no uso econômico da floresta plantada e o envolvimento de pequenos produtores, por meio de programas de parcerias, criam oportunidades de geração de emprego e renda, modernizam as relações de trabalho e ampliam a troca de conhecimento.

Os números são exemplares – econômica, social e ambientalmente. A indústria de papel e celulose representa 5,5% do PIB industrial brasileiro e gera 4,2 milhões de empregos. Os 7,74 milhões de hectares de árvores plantados no país foram responsáveis no ano passado por um estoque de aproximadamente 1,69 bilhão de toneladas de dióxido de carbono (tCO2).

Sozinho, de acordo com a Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), que representa o setor, o Brasil possui o maior estoque de carbono do mundo com 12% das florestas do planeta. Sessenta e cinco por cento de cada hectare plantado com árvores para fins industriais são destinados à preservação, em comparação a apenas 7% da agropecuária. Segundo o IBÁ, o setor contabiliza 5,8 milhões de hectares de áreas recuperadas.

"O setor ajudou muito na recuperação das áreas de Mata Atlântica. Já pegou uma área desmatada", diz Mauro Armelin, superintendente de conservação da WWF Brasil, braço brasileiro da rede ambientalista global. O esforço é significativo diante da perda de cobertura vegetal no planeta. Em 1990, a Terra tinha 4.128 milhões de hectares de floresta. Em 2015 são 3.999 milhões hectares. As áreas verdes que ocupavam 31,6% da área terrestre, em 1990, caíram para 30,6%, em 2015, de acordo com o estudo “Global Forest Resources Assessment 2015 – How are the world`s forest changing?”, da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Se a pecuária adotasse o padrão da indústria de papel e celulose, a Amazônia estaria em situação muito melhor”, diz Armelin, da WWF. “O Brasil é o primeiro do mundo em expertise no setor de papel e celulose. Isso tudo já é sustentabilidade econômica e social”, afirma Elizabeth Carvalhaes, presidente da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), que representa 61 empresas e nove entidades estaduais de produtos originários do cultivo de árvores plantada.

A avaliação feita por Carvalhaes sobre a excelência tem lastro. Um hectare no Brasil produz 39 metros cúbicos de eucalipto de fibra curta em um ciclo de seis anos. O segundo colocado do mundo é o Chile, que produz cerca de vinte metros cúbicos por hectare, mas em um ciclo no qual a árvore leva vinte anos para crescer, de acordo com o relatório “Papel e Celulose”, do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Banco Bradesco, de setembro deste ano. Na Suécia e Finlândia a plantação leva de 35 a 40 anos para se desenvolver e a produtividade por hectare cai para sete metros cúbicos.

A Fíbria, que produz 5,3 milhões de toneladas anuais de celulose e papel em quatro unidades industriais que geraram receita líquida de R$ 7,084 bilhões em 2014, elaborou no ano passado um mapa de risco de ocorrência de doenças do eucalipto e ações de manejo das florestas, para evitar, por exemplo, erosão provocada por inundações.

Em todas as suas unidades, a companhia desenvolve espécies com a capacidade de suportar climas extremos. Ferramentas tecnológicas acompanham o crescimento do plantio segundo a segundo, com balanços de carbono e medição da eficiência no uso de água e energia. A companhia avalia sua vulnerabilidade às mudanças climáticas do ponto de vista de toda a cadeia de valor e adota o princípio da precaução no gerenciamento e na operação de atividades industriais e florestais.

O reúso de água, a elaboração de inventários de emissão de gases de efeito estufa (GEEs), com foco na pegada de carbono da celulose e práticas conservacionistas na construção de estradas e resiliência na edificação de pontes estão entre as medidas adotadas pela empresa.

A Suzano, que opera em 897 mil hectares de áreas florestais e seis unidades industriais e registrou receitas de R$ 7,3 bilhões em 2014,, avançou por meio da subsidiária FuturaGene na liberação para uso comercial de uma variedade de eucalipto geneticamente modificado que promete ganhos de produtividade e menor emissão de gás carbônico. Na fábrica de Imperatriz, no Maranhão, na Região Nordeste, um sistema de queima permite que o lodo primário da caldeira de biomassa seja utilizado como combustível alternativo. Desde o ano passado, conselhos comunitários da empresa estimulam o desenvolvimento local incentivando a capacitação profissional.

Parte dos R$ 5,8 bilhões que a Klabin investe na nova fábrica de celulose de Ortigueira, no Paraná, Região Sudeste, que será inaugurada no ano que vem com capacidade para produzir 1,5 milhão de toneladas, se destina a uma usina térmica própria que irá garantir a sustentabilidade energética de todo o grupo. A companhia, que tem mais de 239 mil hectares de área plantada e capacidade de produção de 3,5 milhões de toneladas de papel e celulose em 14 unidades industriais no Brasil e uma na Argentina, já reduziu para um quarto o consumo de combustíveis fósseis na geração de vapor para o cozimento da madeira. Processos de reúso e circuito fechado de água reduziram o consumo do recurso à metade.

A empresa, que teve receita líquida de R$ 4,89 bilhões no ano passado, também promove inovação para o aumento da produtividade da floresta. O plantio em mosaico, com parte dos espaços ocupados pelas florestas plantadas e parte por vegetação nativa, preserva as áreas perto dos rios e ajuda, com isso, a criar um microclima para a conservação dos recursos hídricos. No centro de pesquisa, 70 especialistas desenvolvem 2 mil cruzamentos por ano para obter espécies híbridas mais resistentes e produtivas. “Estamos sempre tentando fechar o ciclo para um processo cada vez mais sustentável”, diz Francisco Razzolini, diretor de Projetos e Tecnologia da Klabin.