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Brasileiros são os que mais procuram por produtos com certificado florestal

Criado: 06 novembro 2017

Pesquisa apresentada pelo Forest Stewardship Council (Conselho de Manejo Florestal) mostra que os consumidores do país estão dispostos a pagar mais caro por produtos com certificado de bom manejo florestal

Vancouver (Canadá) - O consumidor brasileiro está entre os mais dispostos a colocar a mão no bolso e pagar mais caro por produtos florestais certificados. É o que aponta o resultado de uma pesquisa apresentada no mês passado pelo Forest Stewardship Council (Conselho de Manejo Florestal) durante a oitava edição da Assembleia Geral da organização não governamental.

O FSC, na sigla em inglês, encomendou à consultoria GlobeScan um estudo sobre a marca em 13 diferentes países. A intenção era escanear as características e as necessidades desses mercados. O resultado apresentado pelo diretor executivo Eric Whan, em 11 de outubro, em Vancouver, mostra que o Brasil e a Indonésia são os que têm maior inclinação a comprar produtos de origem responsável, ou seja, que não agridam o meio ambiente. E ambos também lideram o ranking mundial do desmatamento.

Questionados se investiriam dinheiro em artigos certificados, 40% dos entrevistados responderam que sim, com certeza, e 33% disseram provavelmente sim, totalizando 73%. A pesquisa on-line, dividida em diferentes painéis nacionais de apuração, consultou 10.435 pessoas no Brasil, na China, na Itália, na Indonésia, na África do Sul, na Índia, na Alemanha, no Reino Unido, na Austrália, nos Estados Unidos, no Canadá, na Rússia e no Japão. Em números gerais, a pesquisa indicou que 25% dos consultados comprariam produtos responsáveis e 32%, provavelmente. Além disso, aferiu que 48% conhecem e estão comprometidos com o FSC.

Diretor-geral do sistema de certificação com mais credibilidade no mundo, Kim Carstersen confirma que o Brasil e a Indonésia estão no radar do FSC. “Temos áreas difíceis. A Amazônia, por exemplo. Existe muita madeira ilegal saindo dali. O mesmo ocorre na bacia do Congo, na África, e na Indonésia”, disse.

Para Kim Carstersen, a instabilidade política é um dos principais adversários no combate ao desmatamento ilegal. “O Brasil é um país muito importante para o FSC. Temos muitas empresas certificadas, uma boa aliança com a indústria de plantação no Brasil. Temos também áreas certificadas na Amazônia. A confusão política, a corrupção, torna tudo muito mais difícil. É um desafio lidar com tantos interesses. A nossa estima é sempre pela legalidade”, reforçou.

Diretora do FSC Brasil, Aline Tristão Bernardes denuncia que “80% da madeira nativa hoje no mercado brasileiro são ilegais. Os madeireiros da Amazônia que fazem certinho, que pagam impostos, que se enquadram na questão do trabalho justo, digno, não conseguem competir. Por isso exportam tudo”, argumentou.

Selo

Embora a pesquisa tenha detectado o aumento do interesse por produtos certificados, o selo impresso na embalagem não é a prioridade do consumidor. “Uma das conclusões é que os principais motivos da compra de produtos florestais são a qualidade, a certeza de que as florestas estão sendo manejadas de forma responsável e, por último, razões de saúde. Isso ao menos significa que o manejo florestal faz parte da equação de valor”, ponderou o diretor-executivo da consultoria GlobeScan, Eric Whan, responsável pelo levantamento.

A amostra também indica que o consumidor tem expectativa sobre questões relacionadas com a proteção das florestas, quer informações sobre sustentabilidade e cobra que a certificação seja realizada por organizações independentes. O selo de certificação pode ser visto, por exemplo, nas embalagens de suco e de leite na geladeira do consumidor. Quando ele aparece, significa que a empresa cumpriu os requisitos necessário.

A pesquisa do FSC detectou o aumento do interesse por produtos certificados, mas também acusou um problema: a comunicação com o consumidor. São recorrentes as reclamações da poluição de informações nas embalagens. O estudo identificou que apenas metade dos entrevistados viram a etiqueta FSC e apenas 15% disseram confiar que a ONG protege as florestas.

“Nós precisamos comunicar claramente o valor de mercado, a importância e a relevância da certificação”, admite Jeremy Harrison, diretor de desenvolvimento de mercado do FSC.

Pioneiro

Criado em 1993, o FSC é o principal e mais antigo sistema de certificação de manejo florestal do mundo. Dividida em três câmaras — econômica, ambiental e social — a ONG avalia em 10 itens se a gestão das florestas é ambientalmente adequada (protege e conserva área de proteção e florestas de alto valor de conservação); socialmente benéfica (respeita os direitos dos trabalhadores das comunidades locais e dos povos indígenas); e economicamente viável (constrói mercados adicionando valor e criando um processo equitativo aos benefícios da certificação).

Saiba mais

Panorama nacional e internacional

Atualmente, o Brasil tem 6.285.838 de hectares certificados na modalidade de manejo florestal e envolve 114 operações, entre áreas de florestas nativas e plantadas. Está no sétimo lugar no ranking total do sistema FSC. Na modalidade de cadeia de custódia — indispensável para evidenciar junto aos consumidores finais a proveniência florestal dos produtos certificados —, o país conta com aproximadamente 1.024 certificados. No mundo, são 195.749.313 de hectares certificados em 84 países diferentes, sendo 33.269 no critério cadeia de custódia em 120 nações.

Florestas para celulares

Em 2015, a Apple teve a ideia de criar sua própria floresta. Hoje, tem árvores suficientes para compensar todas as suas embalagens de papel. Em parceria com a WWF, a grife gerencia 400 mil hectares de florestas nas províncias de Hunan e de Gurangxi, na China, que fornecem fibra para a celulose, papel e produtos de madeira. 130 mil hectares já são certificados pelo sistema FSC (Conselho de Manejo Florestal).

Diretora de Operações, Desenvolvimento de Produto e Iniciativas Ambientais da Apple, Sarah Chandler contou como descobriu que a China é um solo fértil para o plantio de programas ecológicos e apresentou a estratégia da marca norte-americana: aumentar a eficiência das embalagens, usar o máximo de conteúdo reciclado possível e obter papel virgem de fontes responsáveis. “Começar a jornada é o passo mais importante”, desafiou Sarah Chandler.

Parceira da Apple, Kerry Cesareo, vice-presidente de florestas da WWF, reforçou o conceito de floresta positiva e a necessidade de armazenar mais carbono do que é lançado na atmosfera, um dos principais desafios assumidos pelos países na Conferência do Clima. “Quanto e de que qualidade da floresta precisamos para sustentar a vida na terra? Nós temos que olhar não só o que precisamos das florestas, mas do que as florestas precisam”, provocou.

No Brasil também há casos de engajamento. “O McDonad’s assumiu, no Brasil, que 100% das embalagens são certificadas FSC. Tudo, inclusive aquele copinho térmico. Atingiram a meta no Brasil e estão indo para a América Latina agora. A empresa alcança por dia, no Brasil, 2 milhões de consumidores”, contou Aline Tristão Bernardes, diretora do FSC Brasil.

Única fabricante de papel cartão para embalagens líquidas no Brasil — caixinhas de suco e de leite, por exemplo —, a Klabin tem florestas plantadas no Paraná, em Santa Catarina e em São Paulo para a produção de celulose, papel e produtos de papel. “Essas três bases florestais foram iniciadas na década de 1930 ainda e abastecem as nossas fábricas”, disse Ivone Namikawa, responsável pelas florestas sustentáveis da empresa.

Sete perguntas para Elizabeth de Carvalhaes

Presidente-executiva da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá)

Qual é o papel das florestas plantadas para fins industriais no Brasil?

As florestas plantadas existem em 10 países. O mais avançado é o Brasil. Do ponto de vista ambiental, elas são importantes, porque você tem preservação de árvores naturais. O Brasil produz a celulose mais sustentável do mundo, com clones muito desenvolvidos, que absorvem muito carbono. No Brasil, não existe nenhum papel fabricado a partir de uma árvore nativa. A outra qualidade é a certificação. Há regras difíceis de serem cumpridas e o Brasil tem um alto nível de reputação.

Como esse setor pode ajudar o Brasil a sair da crise?

Estamos conseguindo atravessar a crise sem grandes demissões graças à exportação. O nível de produção não caiu e 90% da celulose brasileira são exportadas. Hoje, a China é o país que mais cresce, e compra celulose do Brasil justamente porque ela é sustentável. Essa atividade vai se repetir se a gente olhar para os compromissos da Conferência do Clima. A meta do Brasil para reduzir todo o impacto diz que 14% virá das florestas.

Nosso código florestal é um dos mais rigorosos do mundo. O que falta para ser aplicado?

O Código Florestal é um mérito, porque o Brasil tem 800 milhões de hectares, grande uso da terra na agricultura, e 62% do território nacional formados por florestas. Houve contestações jurídicas, mas está sendo atualizado. Está implementado em muitas coisas, em outras, não.

O Código prevê a valoração dos serviços ambientais. Por que não sai do papel?

Isso é fundamental. Na nossa visão, o pequeno produtor recupera, por exemplo, as áreas que foram desmatadas. Qual é a maneira de estimulá-lo? Ele tem que receber por melhorar a terra, melhorar a água. Depois, o eucalipto que ele plantou vai sequestrar carbono e ele tem que receber por isso. Ele tirou carbono da atmosfera, que é a grande discussão depois do acordo do clima. Isso precisa ser regulamentado, 70% da nossa terra são do pequeno produtor.

E os títulos verdes, os Green Bonds. Como podem impulsionar o setor de árvores plantadas?

Se você conseguir emitir, já significa que o seu projeto é sustentável. As nossas empresas são totalmente preparadas para emitir o título verde. No ano passado, o país emitiu apenas R$ 3 milhões em Green Bonds. Duas empresas nossas, a Fibra e a Suzano, e outras duas de fora, ou seja, só quatro empresas no Brasil. Isso deve crescer. A dificuldade é o custo. Só vale a pena ser um emissor acima de R$ 500 milhões. Abaixo disso, o custo é alto. Estamos discutindo se podemos ter um banco captador. Emitir Green Bond é sinônimo de reputação. O papel da Ibá é criar uma classe de ativos de maneira que as empresas façam as suas emissões.

Pesticidas e transgenia foram discussões aqui na Assembleia Geral do Conselho de Manejo Florestal (FSC). Qual é a posição da Ibá nessas questões polêmicas?

As certificadoras têm resistência ao uso de pesticida, mas evoluímos bastante. Mostramos que proibir uso de pesticida e de herbicida na área florestal está para o uso da terra assim como proibir o uso de remédios para o ser humano. É a mesma relação. O que temos negociado com o FSC Internacional (Conselho de Manejo Florestal) é a avaliação de risco. Isso é um grande avanço. Não significa que está tudo liberado, mas é uma mudança de paradigma. A transgenia é utilizada praticamente no planeta inteiro na agricultura. Acho que não existe no planeta alguém que não vista uma camisa feita de algodão transgênico. Apesar disso, ela gera desconforto.

Nos próximos anos, serão necessários 250 milhões de hectares de árvores plantadas. Como o Brasil deve se posicionar neste novo cenário?

Hoje, o planeta tem 7 bilhões de seres humanos. Os estudos internacionais indicam que todas elas consomem 7,5 milhões de metros cúbicos de madeira. O planeta vai ter algo em torno de 9,4 bilhões de pessoas em 2050. Elas vão consumir 10 milhões de metros cúbicos de madeira. A demanda do clima é que você pare de consumir produtos de origem fóssil. Vai ter que aparecer no mercado algo para substituir. Os seres humanos serão educados a usar produtos de baixo carbono. Vai nascer a economia de baixo carbono, a necessidade de madeira como alternativa ao combustível fóssil. O mundo vai ter que plantar 250 milhões de hectares de floresta. É fazer outro planeta.

*Veículo: Jornal Correio Braziliense

 

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