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“O Brasil precisa da China”

Criado: 03 junho 2015

A executiva carioca Elizabeth de Carvalhaes está acostumada a romper barreiras no mundo empresarial. Foi a primeira mulher a ocupar um cargo de direção na indústria automobilística, mais precisamente da Volkswagen, na década de 1990. Graduada em letras pela Universidade de São Paulo, desde 2007 ela comanda a Bracelpa, associação do setor de celulose e papel, rebatizada para Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), no ano passado. Agora, Elizabeth se prepara para outro grande desafio: a presidência do International Council of Forest and Paper Associations (ICFPA) que reúne entidades setoriais de fabricantes de papel e celulose de 33 países. Nesta entrevista à DINHEIRO, Elizabeth critica a disposição do governo brasileiro de mudar as regras de desoneração da folha de pagamentos. “Sem políticas estáveis fica difícil trabalhar em um setor no qual todo o planejamento é feito no longo prazo”, afirma. Apesar disso, destaca que os problemas pontuais não irão afetar a disposição do setor, que planeja investimentos de R$ 50 bilhões até 2023.

DINHEIRO – A política restritiva adotada pelo governo afetou o setor de celulose e papel?

ELIZABETH de CARVALHAES – A crise econômica existe e nos afeta, sim. O maior impacto para os produtores de papel, celulose e painéis de madeira foi o retrocesso na desoneração da folha de pagamento das empresas. A medida foi tomada para equalizar a situação de competitividade global das empresas exportadoras, especialmente no caso da celulose, que é praticamente toda direcionada para clientes externos.

DINHEIRO – Qual é o tamanho do prejuízo com a possível mudança na base de cálculo dos tributos que incidem sobre a folha de pagamento?

ELIZABETH – Quando o setor negociou com o governo, deixou claro que não queria todas as benesses de uma vez. Até porque, sabemos que isso não era e nem é possível. As medidas anticíclicas foram importantes, cumprimento o governo por isso, mas é importante ressaltar que sem políticas estáveis fica difícil trabalhar em um setor no qual todo o planejamento é feito no longo prazo. Isso vale para as decisões referentes ao mercado interno e também para o internacional. Até porque, o setor depende fundamentalmente de ativos florestais que levam sete anos para começarem a ser colhidos.

DINHEIRO – Em termos práticos, quanto que o setor poderia perder?

ELIZABETH – Ainda não conseguimos fechar essa conta, pois o impacto muda em cada caso, dependendo da natureza e das características de cada empresa.

DINHEIRO – Os rumos da economia preocupam o setor de celulose e papel?

ELIZABETH – O cenário é de recessão, mas não podemos deixar de enxergar que existe o outro lado da moeda. Ao compararmos o setor brasileiro de papel e celulose com o restante do mundo, podemos dizer que estamos bem. Os maiores investimentos globais estão acontecendo aqui. Acabo de ler em um grande jornal sobre os novos projetos de quatro presidentes de empresas de papel, celulose e painéis de madeira. Além disso, a qualidade de nossa matéria prima permite que as empresas daqui ocupem espaços no mercado global deixados pela obsolescência de fabricantes do exterior, que estão saindo do mercado, além de nos facilitar a abertura de novos mercados.

DINHEIRO – De onde vêm os maiores crescimentos do setor?

ELIZABETH – Fundamentalmente, de países emergentes como a China, apesar de o ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto chinês ter caído da faixa de 11% para o patamar de 6,5%, previsto para este ano. O anúncio do recuo foi mal recebido pelo mercado em geral. Mas considero que houve um certo exagero. Afinal, estamos falando de uma população de 1,5 bilhão de habitantes, o que faz do país um mercado esplêndido para quem puder extrair dividendos dele. A desvalorização cambial e a elevação da cotação da celulose também ajudaram os fabricantes brasileiros a equilibrarem melhor o caixa. Em faturamento, as vendas para a Europa cresceram 15,4%, após um longo período de baixa, seguida pela China, com alta de em 13%

DINHEIRO – Mas não é complicado depender tanto do apetite de um único mercado, como a China?

ELIZABETH – A gente não quer reduzir as vendas para a China, mas sim aumentar. Atualmente, as vendas de celulose são bem distribuídas pelo mundo inteiro. O setor possui mercados cativos em todos os continentes, à exceção da África. A China responde por cerca de 35% de todas as exportações brasileiras, mas ainda está abaixo da Europa, que absorve 44% de nossa celulose.

DINHEIRO – Então, o que a Europa não conseguir absorver pode ser desviado para a América Latina e para a China. Essa é a estratégia?

ELIZABETH – Há seis anos, quando assumi a presidência da Bracelpa, antecessora da Ibá, o Brasil exportava 16% de sua celulose para a China. Se investigarmos os números do consumo interno daquele país, veremos que o Brasil fornece 52% de toda celulose importada pelos chineses. O país é tão relevante que a Klabin está investindo em uma nova fábrica que produzirá uma celulose específica para a produção de fraldas, produto que ainda tem um enorme potencial de crescimento em mercados emergentes. O Brasil precisa da China. 

DINHEIRO – Recentemente, um laboratório da Suzano, no interior de São Paulo, foi invadido por um grupo de sem-terras que destruíram mudas de eucalipto transgênico. Afinal, essa variedade é segura?

ELIZABETH – Não tenho informações sobre as características específicas do produto, pois se trata de um segredo industrial. Mas a análise sobre a segurança transgênica cabe à Comissão Técnica de Biossegurança (CNTBio), órgão ligado ao Ministério da Ciência e da Tecnologia. Ela faz um trabalho bastante responsável e seu corpo técnico é visto como um dos mais qualificados para julgar a transgenia, no mundo. O Brasil é um dos mais ativos, do mundo, na área de pesquisa genética associada à agricultura. Estamos atrás apenas dos Estados Unidos. Contudo, em matéria de investimentos estamos na dianteira, por conta da redução dos aportes em pesquisas ocorridos naquele país, a partir de 2008, com a crise econômica global. Quando a CTNBio avalia e aprova um processo produtivo envolvendo feijão ou uma árvore, nós, que não somos cientistas, temos de concordar com sua avaliação.

DINHEIRO – Independentemente do tipo de muda usada, transgênica ou não, as florestas plantadas de pinus e eucalipto não atrapalham a biodiversidade do Brasil e do planeta?

ELIZABETH – Muito do que se fala sobre isso é baseado em uma percepção do passado. E isso tem relação com a dificuldade do setor em se comunicar com a sociedade. Por isso, ainda somos cobrados em relação a questões que aconteceram há mais de 40 anos. Hoje, as mudas de eucalipto desenvolvidas pela indústria brasileira consomem menos água e têm melhor produtividade. Em vez de consumir recursos hídricos, a cobertura vegetal feita pela indústria possui um impacto positivo no regime de chuvas. Além disso, é preciso lembrar que todo projeto de celulose ou papel leva em conta a recomposição da mata nativa. No caso da Mata Atlântica, o setor foi responsável por 11% da recuperação deste bioma. Infelizmente ainda não conseguimos mostrar, de forma clara, os ganhos ambientais proporcionados pelo setor.

DINHEIRO – Mas, para resolver isso, as empresas e as entidades do setor não poderiam ser mais ambiciosas em seus projetos na área ambiental?

ELIZABETH – Já fazemos muito. Quanto mais se planta árvores para o setor de papel, celulose e madeira, mais áreas de floresta são recuperadas no País.

DINHEIRO – A sra. acaba de assumir a presidência do International Council of Forest and Paper Associations (ICFPA). Qual a importância dessa entidade para o Brasil?

ELIZABETH – O Conselho é formado por executivos e empresários de 40 países que plantam florestas, incluindo Estados Unidos, Canadá e Austrália, além de integrantes da América Latina, como o Chile, e da Europa. Meu objetivo é ampliar a visibilidade sobre a importância da plantação de árvores, segmento que precisa ser encarado como uma atividade agrícola. E as florestas estão sempre presentes em diversos fóruns internacionais como na conferência do clima e também lá na FAO (órgão da ONU para a agricultura e nutrição), onde se fala da questão da fome do mundo. Tudo passa pela madeira e pela floresta.

DINHEIRO – Como assim?

ELIZABETH – A madeira apontada como opção renovável ao combustível fóssil, certamente não será aquela que leva 80 anos para crescer, mas sim a de florestas plantadas, cujo ciclo é mais curto. São elas que podem trazer mais rapidamente madeira para os mercados doméstico e internacional. No entanto, precisamos continuar apostando em tecnologia, porque já ficou claro que a produção, do jeito que é feita hoje, não será suficiente para dar conta da demanda global. A previsão é de que, em 2030, vão faltar 200 milhões de florestas plantadas. O Brasil tem consciência de que é muito importante ampliar a cobertura florestal do planeta. É essa consciência que pretendemos levar para dentro do ICFPA e desses fóruns internacionais.
Presidente da Ibá fala a IstoÉ Dinheiro sobre os impactos da crise econômica para o setor de árvores plantadas.

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