ibá

Defesa Fitossanitária

Criado: 12 agosto 2015

O Brasil é apontado como o principal fornecedor de alimentos, fibras e energia – os chamados 4F´s (Food, Fuel, Fiber, Forests), até o ano de 2050. A expectativa para o período é que a procura anual de madeira triplique para mais de 10 bilhões de m³, o equivalente a quatro milhões de piscinas olímpicas repletas de madeira todo ano. Seremos 9,5 bilhões de pessoas em 2050, e para abastecer o planeta sem esgotar as fontes de matéria-prima a partir dos princípios do desenvolvimento sustentável, será necessário elevar o nível de produtividade, qualidade dos produtos, reduzir custos e cumprir o código florestal. Os silvicultores e agricultores são protagonistas nesse cenário de riscos, desafios e oportunidades. A expectativa de vida aumenta e a taxa de natalidade diminui. O Brasil ficou velho sem ficar rico, ou seja, somente com o aumento da eficiência e da produtividade poderemos um dia, quem sabe, ser um país desenvolvido.

Comprovadamente, o Brasil foi o país que mais cresceu no quesito produtividade florestal e triplicou o índice de produtividade nas últimas três décadas. Esse turnover foi alicerçado não somente na excelência da pesquisa florestal, mas nos ajustes da década de 1990, com controle da inflação a partir do plano real e a abertura econômica que estimulou a eficiência dos nossos produtores e permitiu investimentos. Vão-se os anéis ficam os dedos, com tamanho ajuste alguns produtores deixaram a atividade. Aqueles que permaneceram no mercado, porém, tornaram-se competitivos. Vale lembrar que até a década de 90 fazíamos colheita com motosserras, ao passo que hoje temos suntuosos harvesters e fowarders operando nos talhões.

No entanto, a silvicultura brasileira vem sofrendo um ataque silencioso: as pragas exóticas. Desde a invenção da escrita, o ser humano atua como disseminador de plantas e animais domesticados por meio do comércio. Os próprios impérios Romano e Mongol, por exemplo, eram baseados no livre comércio, e disseminavam frutas e ervas exóticas em seus vastos territórios. A segunda metade do século XX foi marcada pela intensificação no trânsito de mercadorias e pessoas e, consequentemente, da disseminação de pragas e doenças.

As pragas não estão fixadas no tempo e no espaço. A variação da distribuição das espécies faz parte do processo evolutivo. Este processo deverá ser intensificado até o final desse século em função das mudanças climáticas. O tema tem tamanha envergadura que, pela primeira vez, uma encíclica papal teve como arcabouço os aspectos de meio ambiente frente às mudanças climáticas. Apesar das grandes conquistas alcançadas para a segurança alimentar, principalmente pelo aumento de produtividade dos alimentos e fibras nos países em desenvolvimento, a “Laudato Sí” associa as tecnologias utilizadas na agricultura apenas aos seus efeitos deletérios. Sem o desenvolvimento da tecnologia dos herbicidas, como seria possível mitigar as emissões de CO2 da agricultura, hoje somente possível pelo advento do plantio direto ou do cultivo mínimo na silvicultura? Quantos bilhões de toneladas de carbono deixaram de ser lançadas na atmosfera graças às práticas conservacionistas de uso do solo? Como atingir os objetivos de segurança alimentar e mitigação das mudanças climáticas sem o uso dessas tecnologias?

Na mesma linha vai a legislação brasileira.  Por que foi desregulamentada a prática de mistura de defensivos em tanque? A mistura em tanque é uma prática realizada mundialmente com êxito, propiciando redução de custos, aumento do espectro de controle de pragas e plantas daninhas, redução do potencial de contaminação ambiental e de exposição dos trabalhadores rurais aos defensivos, além da diminuição da emissão de gases de efeito estufa e compactação de solos pela redução do tráfego de máquinas.

O fato é que o mundo ficou muito mais urbano do que rural. Quando se registra um organismo geneticamente modificado para a agricultura, a comoção é grande, e a discussão é muito mais pautada na emoção do que ciência. Porém, no caso do Aedes Aegypti geneticamente modificado, todos entendem que a causa serve a um bem maior. Muito simples, as pessoas entendem o que afeta o seu dia-dia. Não se vê comoção contra todas as tecnologias disponíveis para combater a Dengue, sejam inseticidas ou transgênicos. O público urbano se desconectou com o campo, e muitas vezes não tem noção da quantidade de pragas e doenças que atacam os produtores rurais. Vale lembrar que as pragas não escolhem o tamanho da propriedade. Estamos na década do “orgânico”. Pode até funcionar consumir hortaliças produzidas nos subúrbios de Helsinki, porém, pensando nas 9,5 bilhões de pessoas, provavelmente teríamos que cultivar toda a área terrestre do planeta, a um custo associado considerável. Por isso, a intensificação sustentável da agricultura e silvicultura, em grande escala, utilizando técnicas modernas e empregando tecnologia, pode suprir a necessidade das pessoas de maneira eficiente.

A disseminação e uso das tecnologias no campo é o grande desafio. Na questão do uso de defensivos, estamos sempre, no mínimo, de quatro a cinco anos atrás dos nossos concorrentes, isso falando apenas da agricultura. Na silvicultura a questão é mais complexa. Primeiro, diz respeito ao processo regulatório: no Brasil, leva-se até quatro anos para uma simples extensão de uso ou inclusão de alvo biológico. Em segundo lugar, apesar da grandeza do setor florestal Brasileiro, em termos de tecnologias disponíveis para defesa fitossanitária poderíamos ser considerados Minor Crops. O setor sofre com a inércia dos órgãos reguladores, a falta de interesse das empresas registrantes, e com sistemas de certificação que restringem o uso de moléculas, sendo muito mais restritivos que a legislação nacional. No fim, temos apenas tecnologias obsoletas disponíveis, colocando em risco a sanidade vegetal da nossa silvicultura. Dessa maneira, as ações de vigilância tornam-se especialmente importantes.

Desde os anos 2000, cinco pragas exóticas se instalaram nas florestas plantadas brasileiras. O percevejo bronzeado -  a principal delas. Encontrado pela primeira vez em 2008 o inseto já está disseminado desde o Rio Grande do Sul até o Maranhão. No Estado de São Paulo a situação encontra-se em situação de emergência: o Estado já fez o pedido da declaração do estado de emergência fitossanitária para o Ministério da Agricultura. Segundo o IPEF (Instituto de Pesquisa e Estudos Florestais), o impacto econômico das novas pragas na silvicultura pode chegar à R$ 2 bilhões nos próximos 7 anos. A silvicultura Brasileira tem enfrentado grande dificuldade para manter a competitividade sob a ótica de manejo integrado de pragas e doenças.

Que a triste história da doença da vassoura de bruxa não se repita em outras culturas, quando na década de 80, o Brasil passou da condição de maior produtor mundial de cacau para importador. Para que isso não aconteça, uma das ações prioritárias no campo regulatório é que o governo coloque em prática o recém-lançado “Plano de Defesa Agropecuária 2015/2020”. Uma das seis estratégias que alicerçam o referido plano é a atualização de marco regulatório: “atualizar a legislação vigente e padronizar diretrizes que atualmente estão contrapostas nas diversas esferas federativas. Criar condições necessárias para a instituição de um Código de Defesa Agropecuário”.

Por fim, é necessário entender o tamanho do bem intangível que é a defesa fitossanitária para nosso país. A sanidade vegetal é um patrimônio estratégico para o Brasil e deve ser levada a sério como tal. Que nossos silvicultores possam ter o mesmo nível de competitividade, tecnologia e qualidade de vida que seus pares Americanos ou Australianos.

Alan Batista

«Veja todos os artigos