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Florestas e Segurança Alimentar

Criado: 03 junho 2015

A fome e a segurança alimentar têm sido temas amplamente discutidos globalmente. Estima-se que aproximadamente um bilhão de pessoas passem fome todos os dias (FAO), com as perspectivas de aumento populacional para 9.3 bilhões de pessoas em 2050. Assim, a produção agrícola precisaria crescer 60% para suprir a necessidade nutricional dessa população.

O desafio da segurança alimentar no século XXI está intimamente ligado a outros assuntos globais, como as mudanças climáticas, o crescimento populacional e a necessidade de gerir a crescente demanda por energia, água e florestas (madeira e fibras). A Estratégia Global para a Segurança Alimentar, da FAO, inclui o manejo florestal sustentável e os serviços ambientais oferecidos pelas florestas como recomendações chaves para garantir a produção agrícola e a segurança alimentar.

Em muitos países, o desmatamento alavancado pela crescente demanda por alimentos, fibras e energia têm degradado ecossistemas, reduzido à disponibilidade de água, a biodiversidade e a qualidade dos solos, afetando fortemente a segurança alimentar, em especial de comunidades rurais menos favorecidas.

Tanto as florestas naturais como as plantações florestais desempenham papel fundamental para aqueles que vivem na floresta e em seu entorno, ou para os que dependem da terra para sua sobrevivência. Assim, as florestas deveriam receber atenção significativa em políticas e estratégias sobre segurança alimentar e combate à fome.

O Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) estima que aproximadamente 1,6 bilhão de pessoas dependam das florestas para sobrevivência. As comunidades ligadas às plantações florestais dependem destas principalmente como geradoras de emprego, renda e indiretamente por seus serviços ecossistêmicos.

Como fonte direta de alimento, podemos mencionar a produção de mel. A apicultura brasileira é caracterizada como uma atividade produtiva de baixo investimento, bom retorno financeiro e alta competitividade internacional. Atualmente, o Brasil e o 11º maior exportador de mel do mundo. Uma das contribuições para o aumento da produção melífera (de acordo com a ABEMEL, entre 2011 e 2014 as exportações cresceram 38,5% - o Brasil exporta cerca de 50% do volume produzido) são as parcerias estabelecidas entre empresas florestais e apicultores locais. As atividades são desenvolvidas de forma conjunta, resultando em benefícios econômicos e sociais para a região.

Além dos benefícios diretos na produção de alimento, as plantações florestais desempenham relevância significativa na geração de emprego e renda para comunidades locais, estimulando o desenvolvimento rural. Em 2014, o setor de árvores plantadas foi responsável por cerca de 4,2 milhões de empregos diretos, indiretos e resultantes do efeito-renda. Pequenos produtores são beneficiados pelos programas de fomento: no ano passado, aproximadamente 17,8 mil famílias foram beneficiadas com contratos de fomentos gerando valor econômico e social para as comunidades locais, que são inseridas na cadeia de valor, possibilitando geração de renda e contribuindo também para sua segurança alimentar.

Outro benefício envolve a importância do consumo da madeira como principal fonte de energia para a preparação de alimentos e outros fins, em países menos desenvolvidos. No relatório “The State of World's Forests 2014”, a FAO calculou que aproximadamente metade da madeira produzida no mundo é utilizada para energia, e que uma em cada três famílias no mundo utilizam a lenha como principal combustível para preparar seus alimentos.

No Brasil, o volume consumido e a produção de lenha de árvores plantadas vêm aumentando a cada ano. Em 2012 a produção cresceu 9,7% em relação ao ano de 2011, sendo que 30% dessa produção foi destinada para o consumo residencial (IBGE, 2012). Estes indicadores demonstram tanto a contribuição das plantações florestais para suprir as necessidades de energia, como a forma que a lenha contribui para a dimensão da segurança alimentar, fornecendo a energia necessária para preparar alimentos seguros e nutritivos.

Os serviços ambientais oferecidos pelas plantações florestais também desempenham papel significativo na produção de alimento, tanto pela proteção de solos contra processos erosivos quanto pela manutenção de sua fertilidade e condições físicas, além de prover habitat para polinizadores e predadores de pestes agrícolas.

Outros serviços de extrema relevância incluem a regulação climática e a dos ciclos hidrológicos. Estima-se que os 5,4 milhões de hectares de florestas plantadas no Brasil estoquem 2,40 bilhões de toneladas de CO2. As mudanças climáticas são grandes ameaças para o desenvolvimento agrícola, a manutenção da biodiversidade e a produção de alimentos. Assim, o papel na absorção e estoque de carbono pelas florestas plantadas apresenta relevância na regulação climática e consequentemente para a produção de alimentos.

Principais desafios

O desmatamento, a falta de planejamento e mau uso da terra têm efeitos cumulativos que causam o empobrecimento da terra e consequentemente das populações e comunidades que dela dependem diretamente. A degradação do solo certamente causa significativos impactos nas questões de segurança alimentar. Comunidades com alto grau de insegurança alimentar têm maior tendência de degradação e exploração indiscriminada dos recursos naturais.

As contribuições das florestas naturais e plantadas, além dos sistemas agroflorestais, são pouco referidas e consideradas em políticas de desenvolvimento agrícola e programas de nutrição e segurança alimentar. Muitas vezes, as florestas são negligenciadas em favor de subsídios agrícolas que desconsideram os custos ambientais dessa produção.

Outra dificuldade é a falta de dados e pesquisas sobre a importância das florestas para a segurança alimentar. A ausência de conhecimento e evidências que fundamentem o desenvolvimento de políticas públicas efetivas, também é um desafio a ser considerado. Pesquisas em áreas específicas poderiam trazer contribuições significativas para programas e políticas de combate à fome e miséria no País, ao investigar, por exemplo, o papel de produtos florestais não madeireiros; serviços ecossistêmicos e sua contribuição para a produção de alimentos (sequestro de carbono, mitigação de mudanças climáticas e manutenção dos recursos hídricos); geração de emprego e renda pelo setor florestal, garantindo desenvolvimento das comunidades rurais.

Também seria necessário firmar protocolos ou acordos internacionais que direcionassem a coleta de dados e a disseminação de informações sobre a importância, o comércio e o uso de produtos e serviços de base florestal, ressaltando sua contribuição para a mitigação da insegurança alimentar.

Oportunidades e Perspectivas

O manejo florestal sustentável é um conceito amplo e dinâmico, que garante o uso e a conservação dos recursos simultaneamente à geração de benefícios para comunidades rurais, incluindo a melhoria da segurança alimentar. O manejo da paisagem incorporando pequenos produtores na cadeia produtiva, com manutenção de áreas de florestas naturais, garante uma base ecológica que permite a produção, colheita e a compra de alimentos, conciliando os aspectos sociais, econômicos e ambientais.

As plantações florestais têm papel importante também na contenção da degradação da paisagem e do solo, permitindo que as comunidades se apropriem desse valor gerado, por meio da integração na cadeia de valor e do estabelecimento de sistemas agroflorestais.

A geração de emprego e renda pelo setor florestal é um importante meio de garantir segurança alimentar de comunidades rurais. A capacitação de profissionais para que tenham condições melhores e mais estáveis de trabalho também garante maior acesso e consumo de alimentos em termos de qualidade, variedade e diversidade de nutrientes.

A ativa participação de stakeholders, incluindo as comunidades locais e pequenos produtores, no manejo da paisagem, bem como em processos decisórios de direto impacto, é crucial para a garantia da qualidade da gestão da paisagem e uso da terra e, consequentemente, da melhoria nas condições de segurança alimentar.

Conclusões

Florestas naturais, plantações florestais e sistemas agroflorestais demandam atenção no desenvolvimento de politicas públicas de promoção da produção e segurança alimentar.

Entre as contribuições do setor de árvores plantadas neste contexto, destacamos:

O tema é de grande complexidade e exige o engajamento do governo, do setor privado e da sociedade civil. Há um caminho longo a seguir, principalmente no que tange a inclusão das florestas como contribuintes relevantes em politicas e programas de combate à fome e à insegurança alimentar. O setor de árvores plantadas está certamente comprometido com o desenvolvimento rural e o bom uso da terra, sua relevância deve ser reconhecida e considerada.

Natalia Canova

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